quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Forças Especiais Ganham maior Relevância na Guerra Global Contra o Terror


Gen Bda R/1 Alvaro de Souza Pinheiro
Analista Militar especialista em Operações Especiais

Conforme divulgado pelo Pentágono, em 23 de abril próximo passado, o Secretário de Defesa, Donald H. Rumsfeld aprovou uma série de novos planos operacionais, no contexto do combate global contra o terrorismo. Estes planos, segundo fontes oficiais, se constituem no mais ambicioso planejamento já desenvolvido, visando não só uma retaliação rápida e decisiva, na eventualidade de um outro ataque terrorista de maiores proporções contra os EUA, como também propiciar a tomada da iniciativa com a execução de ações de caráter preventivo que possam vir a evitar que eventos dessa natureza venham a ocorrer.

Diferentemente dos planejamentos de nível político-estratégico que os antecederam, o 2006 Quadrennial Defense Review (QDR 06) e o National Military Strategic Plan for the War on Terrorism (NMSP-WOT), que eram ostensivos, os recentes planos operacionais receberam a classificação sigilosa de Top Secret (Ultra-Secreto). Entretanto, apesar das restrições de divulgação que o envolvem, fontes oficiais do Pentágono enfatizaram que este recente planejamento incrementa de forma significativa a participação da área militar, particularmente do U.S. Special Operations Command (SOCOM), grande comando operacional de alto nível, responsável pela sua elaboração, e de seus elementos subordinados (com ênfase nas Forças Especiais) na chamada guerra global contra o terror. De uma maneira geral, analistas de diferentes matizes reconhecem que estes novos planos operacionais marcam uma importante vitória política do Secretário Rumsfeld , num longo e difícil embate por ele travado, que visava uma maior participação da área militar nesta que é uma questão vital para a segurança nacional norte-americana. E os recentes planos materializam esse objetivo porque preconizam a realização de ações predominantemente militares, nos níveis estratégico, operacional e tático, em áreas de atuação que, anteriormente, eram atribuições exclusivas de organismos civis como a Central Intelligence Agency (CIA) e o Department of State (DoS).

Para um País como o Brasil, cuja estatura político-estratégica se pretende que cresça a cada dia e que se apresenta como um candidato ostensivo a ocupar um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, o acompanhamento dos prováveis cenários decorrentes das medidas globais preconizadas nas recentes diretrizes estratégicas norte-americanas é absolutamente indispensável.

O Department of Defense (DoD), durante a gestão Rumsfeld sempre defendeu a convicção de que a partir dos trágicos acontecimentos de 11 de setembro de 2001, o poder militar norte-americano deveria evoluir de uma ação estratégica envolvendo meios de infantaria, carros de combate, navios e aviões de ataque, numa postura eminentemente convencional, para uma estratégia de guerra irregular, focada em atividades especiais, que possibilite o combate eficaz a inimigos não-estatais que empregam táticas, técnicas e procedimentos típicos de conflitos assimétricos. Tudo sem perda da sua capacitação convencional.

Nesse contexto, é possível acompanhar-se o crescente prestígio obtido pelo SOCOM que, na atualidade, é o Comando a quem cabe a responsabilidade de liderar a chamada guerra global contra o terror. E coube ao seu Comandante, General Doug Brown a elaboração dos atuais planejamentos operacionais que, segundo fontes oficiais, são fruto de um trabalho intensivo de três anos. O orçamento do SOCOM cresceu da ordem de 60% desde 2003, atingindo da ordem de 8 bilhões de dólares, em 2007, o que o destaca como o grande comando operacional unificado de maior montante, no elevado orçamento de defesa norte-americano. Com isso, está sendo possível aumentar o seu efetivo atual de 53 000 profissionais, em mais 13 000, bem como a manutenção de elevados padrões de capacitação operacional das Forças de Operações Especiais que integram as unidades do SOCOM, dentre as quais destacam-se as Special Forces, a Delta Force, os Rangers, os SEALs , e unidades da Força Aérea e da Aviação do Exército especializadas em operações especiais.

O aspecto mais significativo definido nos recentes planejamentos é a possibilidade do desencadeamento de atividades especiais, sejam elas ostensivas, cobertas e/ou clandestinas, em áreas do globo não pertencentes a nenhum teatro de operações. Entende-se que, na atualidade, são duas as regiões a serem consideradas como teatro de operações, o Afeganistão e o Iraque, ambas regiões em que a condução de operações militares é da responsabilidade do grande comando combatente unificado U.S.Central Command (CENTCOM).

A nova diretriz estratégica traz repercussões inclusive dentro da esfera militar. Anteriormente, a responsabilidade pela condução de atividades especiais, fora dos teatros de operações, era dos grandes comandos unificados regionais, tais como os U.S. Central Command (CENTCOM), U.S. Atlantic Command (LANTCOM), U.S. Pacific Command (PACOM), U.S. Southern Command (SOUTHCOM) e U.S. European Command (EUCOM). Agora, essas atividades serão conduzidas sob a responsabilidade do SOCOM, sendo os seus elementos executantes apoiados por estes grandes comandos regionais, quando for o caso. E mesmo dentro de um teatro de operações, abre-se a possibilidade de que determinadas atividades desenvolvidas por forças de operações especiais, sob a responsabilidade desses grandes comandos regionais, passem a ser desenvolvidas sob a plena responsabilidade do SOCOM.

Nesse contexto, Special Forces Operational Detachments (Destacamentos Operacionais de Forças Especiais, integrados por pequenos efetivos, da ordem de 12 combatentes) já estão sendo enviados a cerca de 20 países no Oriente Médio, Ásia, África, e América Latina, com a finalidade de obtenção de inteligência e preparar planejamentos operacionais especiais, possibilitando um sensível incremento da capacidade de conduzir operações militares de natureza diversificada em regiões do globo aonde os EUA não estão em guerra. E algo extremamente importante no novo contexto, é que, atualmente, essas ações preliminares serão meramente informadas aos embaixadores, diferentemente da necessidade de solicitar sua aprovação àquelas autoridades, como era no passado recente.

Na atualidade, as Forças Especiais do Exército dos EUA estão organizadas em 5 Grupos (valor Brigada, integrados por 3 Batalhões cada) do serviço ativo, cada qual orientado para uma região do globo: 1st SF Group - Ásia; 3rd SF Group - África; 5th SF Group - Sudoeste e Ásia Central; 7th SF Group - América Latina; e 10th SF Group - Europa. Acrescentam-se a estes, dois Grupos da Guarda Nacional, os 19th e 20th SF Groups. Basicamente, estar orientado para uma determinada região geográfica impõe, dentre outros aspectos de conhecimento, o domínio da(s) língua(s) e a ambientação com as culturas. Entretanto, quando necessário, conforme o que houve no Afeganistão, e está ocorrendo no Iraque, a necessidade pode impor o emprego em outras áreas que não as de orientação original. Os SF Groups se reportam ao U.S. Army Special Forces Command, o qual se reporta ao U.S. Army Special Operations Command, o qual, por sua vez, reporta-se ao U.S. Special Operations Command (SOCOM).

Segundo dados obtidos de depoimentos de autoridades do SOCOM ao Comitê das Forças Armadas do Congresso, este mais recente planejamento operacional se constitui de um plano principal (Main Campaign Plan) e dois planos complementares. O Plano de Campanha Principal estabelece medidas de coordenação e controle visando a maior integração entre as forças de operações especiais e os grandes comandos combatentes regionais unificados, conforme as diretrizes estratégicas contidas no National Military Strategic Plan for War on Terrorism. Dentre as ações impostas a realizar destacam-se: localização, identificação, captura ou eliminação de líderes terroristas; localização de áreas de homizio e de adestramento; e inteligência especificamente voltada para comunicações, apoio logístico e financeiro, e recrutamento.

O segundo plano enfoca especificamente as ações a realizar contra a organização Al Qaeda e suas associadas, incluindo ações preliminares retaliatórias a mais de uma dúzia de organizações terroristas atuantes no Oriente Médio, Ásia (Central e Sudoeste) e África.

E o terceiro plano estabelece medidas de coordenação e controle destinadas a fazer face a hipóteses de ataques terroristas de grande monta no território norte-americano. Inclui linhas de ação para a execução de retaliações rápidas, eficientes e eficazes contra possíveis organizações terroristas responsáveis, indivíduos ou estados patrocinadores, dependendo de quem esteja por trás desses ataques.

Segundo fontes oficiais familiarizadas com o atual planejamento, a ocorrência de um novo atentado de grandes proporções contra os EUA possibilitaria condições político-estratégicas não existentes hoje, para o desencadeamento de uma série de retaliações sobre alvos de natureza diversificada em diferentes regiões, já devidamente levantados pela inteligência.

Dentro desse contexto, o SOCOM vivencia hoje, conforme recente depoimento de seu Comandante, General Brown, ao Congresso, o maior desdobramento de forças de operações especiais na história militar norte-americana. São 7 000 profissionais fundamentalmente engajados em missões de reconhecimento, obtenção de inteligência e caçada a líderes terroristas. 85% dessas forças estão desdobradas no Oriente Médio, Ásia Central e no "Chifre" da África.

Alguns analistas têm manifestado que as recentes diretrizes estratégicas expedidas pelo SOCOM, com o devido respaldo do Secretário de Defesa, não estão contribuindo para o esvaziamento das tensões ocasionadas pela interferência na esfera de atribuições de outras instituições; muito pelo contrário. Entretanto, funcionários do Departamento de Estado têm diplomaticamente declarado que o relacionamento com a área militar é o melhor possível, muito embora ainda estejam pendentes questões relacionadas à intrusão das forças de operações especiais em "áreas cinzentas", sobretudo, no que concerne à cadeia de comando. Todos os grandes organismos envolvidos têm manifestado que o debate, no melhor sentido, deve continuar, a fim de que quando da eclosão de crises, os procedimentos estejam o mais afinados possível.

No que concerne ao Brasil, não há dúvidas que a região da Tríplice Fronteira (Brasil, Argentina e Paraguai) é uma das áreas contempladas no contexto do atual planejamento do SOCOM. Até porque, nessa região, foi acordado, já há muito tempo, o estabelecimento do "Grupo 3 + 1", com agências de segurança de Brasil, Argentina, Paraguai e EUA compartilhando operações de inteligência e ações repressivas, cujo enfoque seria a suspeita de que grupos radicais fundamentalistas islâmicos estariam utilizando aquela região como área de homizio de pessoal e lavagem de dinheiro. Conforme recentes avaliações feitas publicamente por diversas autoridades norte-americanas de alto nível, em diferentes oportunidades, os resultados dessa integração estariam sendo muito positivos.

Há que se considerar também que não se trata de mera coincidência que o Governo Norte-americano tenha estabelecido recentemente um acordo de assistência militar com o Governo do Paraguai. Os organismos de segurança norte-americanos têm plena ciência de que a região de maior vulnerabilidade da Tríplice Fronteira, por uma série indiscutível de razões, é a localidade de Ciudad del Leste (Paraguai). E, sem dúvida alguma, elementos das Forças Especiais pertencentes ao 7º. Grupo já estão operando naquele País, no contexto das atuais diretrizes.

A Embaixada dos EUA em Brasília evitou qualquer tipo de declaração com relação ao recente planejamento estratégico elaborado pelo U.S. Special Operations Command que amplia, sobremaneira , o conceito da condução da guerra global contra o terror.

Para um País como o Brasil, cuja estatura político-estratégica se pretende que cresça a cada dia e que se apresenta como um candidato ostensivo a ocupar um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, o acompanhamento dos prováveis cenários decorrentes das medidas globais preconizadas nas recentes diretrizes estratégicas norte-americanas é absolutamente indispensável.