terça-feira, 3 de junho de 2014

Síntese da conjuntura - Ernane Galvêas analisa os perigos da inflação
Jornal do BrasilErnane Galvêas
Já está provado, ao longo de muitos anos de experiência, que a inflação não tem qualquer influência na promoção do desenvolvimento. Pelo contrário, tem muita influência negativa. De outro lado, também a deflação não tem qualquer mérito.
Entre as muitas desvantagens da inflação, citam-se, basicamente, a influência negativa sobre os planos de investimento, o desestímulo à poupança monetária e consequente preferência por haveres especulativos, além da redução do poder de compra dos salários, que induz às greves e aos preocupantes conflitos político-sociais.
A atual inflação da ordem de 6% anuais não chega a ser uma tragédia, mas causa sérias preocupações, em função de seus possíveis desdobramentos, entre os quais se destaca o controle arbitrário dos preços e da taxa de câmbio, como vem fazendo o Governo, com pesados danos para a Petrobras, a Eletrobras, o sistema de transportes urbanos e a indústria, de um modo geral.
POLÍTICA CONTRA A INFLAÇÃO
Vamos supor, para simplificar, que existam dois tipos de inflação: de demanda e de oferta. A inflação de demanda ocorre quando a procura de bens de consumo (propensão a consumir) e/ou de investimento (propensão a investir) excede, durante algum tempo, a oferta de bens e serviços. Tanto pode vir do setor privado como do setor público, de um brusco aumento de salários ou uma
forte expansão do crédito. A inflação de oferta geralmente ocorre quando há uma queda brusca na produção agrícola, devido a fatores climáticos ou um choque externo como, por exemplo, a alta dos preços do petróleo e derivados.
A inflação atual no Brasil tem as duas características.
Contra os choques de oferta, a melhor solução é fomentar o aumento da produção ou ampliar as importações, pela redução das tarifas ou valorização da taxa de câmbio.
Contra a inflação de demanda, a melhor saída é pela via dos juros altos, que tornam o crédito mais caro e restringem o consumo e os investimentos, contraindo a demanda agregada.
No Brasil, há mais de 10 anos a inflação tem se situado em torno de 6%, onde permanece inalterada seja diante dos juros baixos (SELIC de 7%) ou dos juros altos (SELIC de 11,0%). É lógico que há evidente inflação reprimida, desde que o Governo impediu os reajustes dos preços da gasolina, da energia elétrica e dos transportes urbanos. Não fora isso, calcula-se que a inflação estaria em mais de 8%.
O que discutimos aqui é saber se o Banco Central, elevando a taxa SELIC, está ajudando ou não a controlar a inflação. A nosso ver, não está, como procuramos demonstrar em artigos anteriores. O Banco Central, na última reunião do COPOM, manteve a SELIC em 11%. Prevaleceu o bom senso.
ATIVIDADES ECONÔMICAS
Após haver avançado 0,7% nos últimos três meses de 2013, o PIB nacional voltou a arrefecer, com crescimento de apenas 0,2% no 1º trimestre deste ano. O consumo das famílias ficou estagnado entre janeiro e março.
Segundo levantamento da FIESP, um terço das indústrias paulistas não pretende investir em 2014. O índice IBC-Br do Banco Central indica que o PIB nacional recuou 0,11% em março ante fevereiro, e cresceu apenas 0,29% no primeiro trimestre.
Segundo as previsões da CNC, o PIB 2014 deverá crescer apenas 1,6%, face ao ritmo lento da indústria (1,3%), da agricultura (1,0%) e do setor serviços (1,8%). A previsão da expansão do comércio é de 4,9% com tendência de queda.
Indústria
Após o forte crescimento de 2010 (10,2%), a indústria nacional vem experimentando uma fase de baixo crescimento desde 2011. Em 2013, cresceu 2,3%, mas no 1º trimestredeste ano não foi além de 0,4%, com queda de 9,5% do setor máquinas e equipamentos, segundo a Abimaq. Em abril, caíram a produção e o nível de emprego, com destaque para a metalurgia, que desceu de 48,8 pontos em março para 47,3. A indústriaautomobilística aumentou a produção em abril (+1,6%), mas continuou com o resultado negativo de -12% no acumulado do ano. O Instituto Aço Brasil (IABr) informa que a produção do setor em abril caiu 5,2% e foi a menor desde 2010. A indústria da construção civil também registrou queda de 9,1% nas vendas de abril, acumulando menos 2% no quadrimestre. No 1º trimestre, houve cancelamento de vendas da ordem de 45%.
Além da retração dos negócios, a indústria sofre a falta de gás, face à maior demanda das usinas termoelétricas. O pessimismo gerado pelo clima de greves e manifestações de rua fez cair o índice de confiança da indústria (ICI) de 95,6 em abril, para 90,7 em maio. Também caiu o índice de confiança do consumidor. É grave a situação da indústria automobilística, com o recall de 238 mil carros da GM e férias coletivas da MAN e outras.
Comércio
Em março, o volume de vendas no varejo caiu 0,5% em relação a fevereiro, acumulando no ano crescimento de 4,5%, o pior desempenho desde 2003. A queda do mês foi puxada por materiais de escritório, informática e comunicações (-4,5%) e combustíveis e lubrificantes (-1,5%). O varejo ampliado caiu -1,2%, com destaque para o comércio automotivo (-0,6%) e materiais de construção (-3,1%). Nos últimos três anos, os estoques estão crescendo a uma taxa maior do que as vendas.
A receita de serviços sofreu queda real de 2,3% em março, ante março/13. Em valores nominais, o setor cresceu 8,7% no 1º trimestre. As vendas dos supermercados subiram 10,29% em abril sobre abril/13 e 2,82% ante março, devido ao impacto da Páscoa. No acumulado do quadrimestre houve avanço de 2,05% e no ano de 8,11%. Regionalmente, destacam-se Acre (+12,1%), Maranhão (+10,1%) e Tocantins (+10,0%).
Segundo a CNC, os feriados da Copa do Mundo devem diminuir as vendas do comércio em cerca de R$1,5 bilhão. A intenção de consumo das famílias, segundo a CNC, teve queda de 2,3% em maio.
Agricultura
Embora se diga que São Paulo sofre a pior seca dos últimos 45 anos, sabe-se que o Estado experimentou secas piores em 1925 e 1964. Enquanto isso, na Região Norte, Amazonas e Pará estão alagados. No Ceará, 96% das cidades seguem em situação de emergência, devido à seca.
A maior perda da agricultura neste ano deverá ocorrer na produção de milho, cuja safra deve chegar a 73 milhões de toneladas, frente a 80 milhões da safra passada. A safra de café está estimada em 44,6 milhões de sacas, 3,8 milhões menor que a anterior. A produção em Minas deverá atingir 23 milhões de sacas, a do Espírito Santo 12,2 milhões e de São Paulo 4,2 milhões.
O Governo aprovou o Plano Agrícola e Pecuário 2014/2015, com recursos de R$ 156,1 bilhões (+14,7%) e juros de 6,5%, ante 5,5% da safra passada.
Mercado de Trabalho
A evolução do emprego no Brasil vem caindo desde 2010, com o saldo líquido de contratações de 196,9 mil em abril de 2013 e 105,4 mil em abril deste ano. As maiores contratações ocorreram no Setor Serviços (68,9 mil), no comércio (18,6 mil), na agricultura (14 mil) e na construção civil (4,3 mil). Na indústria de transformação houve demissão de 3,4 mil. No conjunto, as admissões atingiram 1.862 mil e os desligamentos 1.757 mil. No acumulado do ano, o saldo líquido das contratações chegou a 885 mil. De janeiro a abril, o emprego ficou estagnado, com variação de apenas 0,1% frente ao mesmo período de 2013.
Nas seis principais regiões do País, a taxa de desemprego caiu 4,9%, segundo o IBGE. Pelos dados do DIEESE, a taxa de desemprego subiu de 11,0% em março para 11,1% em abril. Em abril, em relação a abril/13, o pessoal ocupado na indústria caiu -1,9% e na construção -0,9%, tendo subido +1,1% no comércio e 3,5% em serviços.
Setor Financeiro
O total das operações de crédito no sistema financeiro registrou alta de 13,4% em 12 meses (até abril), sendo +6,2% no sistema privado (recursos livres) e +23,2% nos bancos oficiais (recursos direcionados). O Banco Central manteve a taxa SELIC em 11%, o que significa a continuidade da contradição: o BC tenta puxar a inflação para baixo e o Governo puxa para cima.
Um artigo incluído na MP nº627, transformada na lei 12.973/2014, sancionada pela Presidente Dilma, concedeu um benefício tributário que dispensa empresas falidas e bancos em liquidação de recolher o imposto de renda sobre ganhos de capital quando o dinheiro da venda de bens for usado para quitar dívidas com a União.
A medida beneficia principalmente os Bancos Nacional e Econômico, cuja dívida com a União montam a R$ 46,0 bilhões.
Na guerra para revisão dos rendimentos da poupança, face aos Planos Econômicos do Governo nos anos 1980 e 1990, o STJ já deu parecer favorável aos poupadores, mas o STF adiou sua decisão para julho, a fim de rever os cálculos dos prejuízos que advirão para os bancos, principalmente para o Banco do Brasil e a Caixa Econômica.
Inflação
A inflação caiu em maio, como indica a prévia do índice IGP-M/FGV que revelou deflação de 0,04%, influenciada pela queda dos preços no atacado. O IPC-15/IBGE também registrou desaceleração, com alta de 0,58% em maio contra 0,78% em abril. Igualmente, o índice IPC-FIPE subiu 0,42% na 2ª prévia de maio, contra 0,45% na anterior, apesar das altas da batata (+14,12%), do leite longa vida (+3,96%), do pão francês (+1,45%) e da refeição fora de casa (+0,95%). O IGP- 10/FGV subiu apenas 1,3% após alta de 1,19% em abril.
A maior produção de etanol face à nova safra de cana-de-açúcar resultou na redução dos preços nas usinas de 16%, nos últimos 30 dias. O preço do minério de ferro também está em queda.
Setor Externo
A balança comercial registra déficit de US$ 5,6 bilhões no 1º quadrimestre, resultado de US$ 69,3 bilhões de exportações e US$ 74,9 bilhões de importações. A Conta de Serviços e de Rendas apresentou déficit de US$ 14,8 bilhões e US$ 13,6 bilhões, respectivamente, com o que o déficit em C/Correntes subiu a US$33,5 bilhões. O ingresso de capitais somou US$38,3 bilhões.
A dívida externa bruta chegou a US$ 514,6 bilhões, US$ 10 bilhões acima de março e US$ 32 bilhões superior a dezembro/13. As reservas cambiais somaram US$ 366,7 bilhões em abril.
No cenário internacional, a OECD estima uma expansão do PIB mundial de 3,4%, sendo +2,6% nos Estados Unidos, +1,2% na Zona do Euro e no Japão e +7,4% na China. A economia americana continua avançando, com crescimento de 13,2% na construção habitacional em abril. Em contrapartida, o PIB da Zona do Euro cresceu apenas 0,2% no 1º trimestre, com destaque para o crescimento de 0,8% da Alemanha. Na Ásia, a Rússia acertou a venda de US$ 400 bilhões de gás para a China, cuja indústria apresentou ligeira melhora. O PIB do Japão cresceu 1,5% no 1º trimestre.

E o aumento salarial das FFAA?

Governo concede aumento à PF para evitar greve na Copa


A poucos dias do início da Copa do Mundo, o governo conseguiu um acordo com a Polícia Federal para evitar um greve da categoria durante os jogos. O Palácio do Planalto acertou um aumento salarial de 15,8% para agentes policiais, escrivães e papiloscopistas. Será repassado 12% agora e 3,8% em janeiro. A correção salarial terá um impacto de R$ 376 milhões na folha de pagamento da União até janeiro, segundo a Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef), entidade que representa mais de dez mil servidores.

Com isso, a categoria que ameaçava fazer greve durante o mundial para pressionar o Planalto a retomar as negociações de aumento e reestruturação de carreiras, decidiu suspender a ameaça de paralisação - o que impactaria principalmente os aeroportos da cidades-sede da Copa. A PF é parte essencial do plano de segurança da Copa, cujo planejamento foi elaborado com base em uma cartilha produzida pelas Forças Armadas e a própria PF. "Não vamos fazer paralisação e greve na Copa, tanto por causa do acordo (de aumento) quanto por causa das decisões do Supremo Tribunal Federal e o Superior Tribunal de Justiça (STF e STJ, respectivamente, que classificaram a greve como ilegal)", afirmou o vice-presidente Fenapef, Luis Antônio Boudens.

O STJ chegou a determinar uma multa de R$ 200 mil caso a PF decidisse manter a greve na Copa. A limitar foi concedida pelo tribunal após ação impetrada pela Advocacia-Geral da União (AGU). Agora, segundo Boudens, o governo se comprometeu a criar um grupo de trabalho para discutir uma reestruturação de carreira para os policiais. Este foi o ponto decisivo para um pacto de não paralisação na Copa. O Planalto se comprometeu a entregar uma proposta à PF em 75 dias a partir da última sexta-feira (30), quando o acordo foi fechado.

Boudens afirma que o acordo foi assinado por causa da reestruturação e não pelo aumento em si, considerado distante do ideal. "Nós cedemos na aceitação do índice para avançar na reestruturação", diz, afirmando que desde 2007 o governo "ficou intransigente", fechando o canal de diálogo com os policiais. "Nosso salário está defasado há 7 anos e isso significa 40% para ser resgatado", diz.

Aumento legal.

O governo vai enviar ao Congresso Nacional um projeto de lei alterando a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2014 para incluir o aumento da PF. Embora a legislação eleitoral proíba aumentos salariais em ano eleitoral, o governo conseguiu escapar de ser questionado judicialmente por enquadrar o aumento como parte da negociação iniciada em 2012 pela Secretaria de Relações de Trabalho no Serviço Público do Ministério do Planejamento. "Como implementação de carreira iniciada no ano passado, não há problema legal. O que fica proibido é uma revisão geral maior do que a reposição (inflacionária)", avalia o ex-ministro do TSE Torquato Jardim.

segunda-feira, 2 de junho de 2014


Seminário reuniu cerca de 500 pessoas. Foto: UNIC Rio/Gustavo Barreto
‘Esforço nobre, mas perigoso’: seminário comemora dez anos de atuação da ONU e Brasil no Haiti
30 de maio de 2014 · Destaque  - ONU

Em comemoração ao Dia Internacional dos Trabalhadores das Forças de Paz, marcado todo 29 de maio, e o aniversário de 10 anos da Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (MINUSTAH), foi realizado nesta sexta-feira (30), na Escola de Guerra Naval do Rio de Janeiro, o seminário “MINUSTAH e o Brasil – Dez anos pela paz no Haiti”.
Com a presença de autoridades da ONU, do Itamaraty e das tropas brasileiras, além de representantes de instituições civis, o seminário buscou refletir sobre os desafios, sucessos e falhas da Missão, debater sobre o seu futuro e o da nação haitiana e, em um cenário mais amplo, reforçar a importância das missões de paz da ONU na estabilização de países e prevenção de crises humanitárias.
“É um esforço nobre, mas perigoso”, resumiu o diretor do Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil, Giancarlo Summa, que abriu o evento. “Só no ano passado morreram 103 capacetes-azuis em todo o mundo e, desde o início das operações de paz, já são mais de 3,2 mil mortos.”
Necessidade de desenvolvimento
No primeiro dos dois painéis do evento, intitulado “Grandes desafios” e mediado pelo almirante de esquadra (RM1-FN) Alvaro Monteiro, os debatedores discutiram os principais obstáculos à atuação brasileira no contexto organizacional da Missão – especialmente questões de logística, limitação de recursos, burocracia e impasses com a legislação interna.
Sobre sua “grande decepção em termos de estrutura”, o general de exército R1, Augusto Heleno Ribeiro Pereira, afirmou que “uma missão de paz deveria ter um departamento para cuidar de projetos de desenvolvimento, e continuo achando que a ONU deveria ter gente especializada em aplicar imediatamente todos os recursos recebidos para melhorar a vida da população”.
Após detalhar e explicar o quadro hierárquico da Missão, o contra-almirante (FN) Paulo Zuccaro destacou o curioso papel do esporte na aproximação entre culturas, lembrando a partida de futebol entre as seleções do Haiti e Brasil em 2004 – o “Jogo da Paz” –, enquanto o diretor executivo da ONG Viva Rio, Rubem César Fernandes, mencionou a natureza turva dos conflitos no país, sem lados claramente definidos.
O perigo da interferência
Já o segundo e último painel – “O Brasil e as Operações de Paz após a MINUSTAH”, moderado pelo coordenador de pós-graduação do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio, Kai Kenkel – viu um questionamento sobre os propósitos das missões de paz no discurso do general de divisão e ex-comandante de força da MINUSTAH, Carlos Alberto dos Santos Cruz.
“A ação militar, apenas, não vai resolver nada. Ela pode resolver o problema de violência física, mas não é a solução do problema real”, disse, justificando políticas que levem em conta a realidade local e os entraves socioeconômicos do Haiti. Sobre o tema da interferência estrangeira, Santos Cruz apontou para os possíveis prejuízos da atuação de organizações não governamentais.
“Um dos problemas de uma operação como esta é o risco, não só da Missão, mas também de ONGs deformarem completamente o quadro e o relacionamento social. A política consiste em um jogo de pressões, e muitas vezes uma proteção excessiva do governante elimina essa dinâmica de forças. Por isso, temos que ver se às vezes nós não estamos perpetuando essas relações perniciosas.”
Sobre a Missão de Paz no Haiti
A MINUSTAH foi estabelecida em primeiro de junho de 2004 pela resolução 1542 do Conselho de Segurança da ONU.
Até janeiro de 2010, apesar das muitas dificuldades, o Haiti parecia rumo à estabilidade, até que um terremoto de sete graus na escala Richter deixou mais de 220 mil de mortos – entre eles, 102 funcionários da ONU – e 1,5 milhão de desabrigados, segundo dados da Missão.
Entre os 21 brasileiros vitimados pela tragédia estavam a fundadora da Pastoral da Criança, Zilda Arns, e o representante especial do secretário-geral da ONU para o país, Luiz Carlos da Costa.

Doutrina Obama
Para reduzir a ação direta dos EUA, Obama quer combater terrorismo treinando países aliados
Heloísa Villela heloisa.vilela@brasileconomico.com.br
Mestre, como poucos, da retórica, a capacidade singular de proferir bons discursos, recheados de esperança para uma população que já andava exausta das guerras e mentiras do governo George W. Bush, garantiu ao Presidente Barack Obama o resultado positivo nas duas eleições (claro que ele contou, também, com milhões de dólares arrecadados junto a grandes empresas e principalmente ao mercado financeiro). Agora, entrando na fase em que historicamente se define o legado de um presidente norte-americano, Obama decidiu estabelecer o que, aparentemente, é uma nova doutrina para a política externa.
A doutrina Obama diz, na superfície, que já chega de chafurdar na areia movediça dos conflitos alheios. Nada mais de se deixar arrastar para guerras distantes. Na semana que passou ele fez duas promessas referentes a nova diretriz: as tropas que ainda estão no Afeganistão voltarão para casa até o fim de 2016. Claro que um pequeno contingente sempre fica para trás.
Uma força mínima, caracterizada como de apoio e treinamento. Mas nada de operações nas ruas e de centenas de soldados estacionados no país. Obama sabe que o cansaço público com as guerras do Iraque e do Afeganistão é gigantesco. E ainda tem que lidar com a volta para casa de milhares de soldados mutilados, sem habilidades específicas para produzir na sociedade civil e problemas mentais sérios.
Em discurso durante a formatura dos cadetes de West Point, o presidente explicou o que seria, então, a doutrina Obama. Primeiro, enalteceu o poderio militar do país, a supremacia que mantém no mundo e que é hoje insuperável. “A América nunca foi tão forte como agora quando comparada ao resto do mundo”, disse Obama. Em seguida acrescentou que as forças armadas são a espinha dorsal da liderança do país no cenário internacional. “Mas a ação militar norte-americana não pode ser o único, e nem o primeiro, componente da nossa liderança em todas as situações. Só porque temos o melhor martelo, isso não significa que todos os problemas são como pregos”, afirmou.
E como dar continuidade a tão propagada “guerra contra o terrorismo” sem se imiscuir em conflitos alheios? Incentivando os demais países do planeta a combaterem também esses inimigos. Para tanto, Obama anunciou que vai pedir ao Congresso a criação de um fundo de US$ 5 bilhões para financiar a capacitação profissional e material de forças aliadas.
Na visão bem cínica de quem não vê a menor chance do complexo industrial-militar sair perdendo, agora que as guerras do Iraque e do Afeganistão vão finalmente ganhando um quase ponto final, é preciso vender armas em outros lugares. E esse dinheiro vai fazer justamente isso. Vai passar na mão de outros países como forma indireta de financiar a compra de armas e equipamentos militares norte-americanos.
Os Estados Unidos são o único país do mundo que dividem o planeta em comandos militares, como se estivessem diante do antigo jogo “War” cujo vencedor é aquele que consegue dominar todas as regiões do mundo. Para Lawrence Wilkersen, a doutrina Obama não tem nada de novo. O coronel norte-americano Wilkersen foi chefe de gabinete do general Colin Powell quando ele assumiu o Departamento de Estado na primeira administração George W. Bush. Para quem se alistou aos 20 anos para lutar no Vietnã e sempre votou no partido republicano, a experiência junto ao poder completou uma trajetória de mudança pouco comum no país.
Pelo telefone, Lawrence Wilkersen disse que o anúncio de Obama não muda em nada a direção que o país adotou depois da Segunda Guerra Mundial. A fabricação de conflitos e guerras localizadas da guerra fria. Sem a menor hesitação, ele afirmou que a política externa dos Estados Unidos não é traçada no Departamento de Estado e sim no Pentágono. São os interesses da indústria armamentista e do estado de segurança nacional criado desde os anos 50 que ditam as regras à diplomacia.
Lawrence Wilkerson ficou indignado com a famosa apresentação de Colin Powell nas Nações Unidas, quando tentou provar ao mundo que Saddam Hussein era um perigo pois possuía armas de destruição em massa. Mas aquele não foi o pior momento da participação do coronel no governo Bush. Quando as fotos da tortura em Abu Ghraib vieram à tona, para ele foi o fim. O país chegava, de fato, ao fundo do poço. Republicano, ele votou em Obama. E não se conforma que o atual governo não tenha investigado e processado a administração Bush por crimes contra a humanidade.
De Washington, Wilkerson voltou para a vida acadêmica. Formado em filosofia e literatura, hoje ele dá aula em uma universidade e discute com os alunos os processos de decisão política do país a partir da Segunda Guerra Mundial. Bastante pessimista com relação ao futuro, ele diz que mostra aos alunos como a democracia norte-americana se transformou em um estado de segurança nacional. A criação da CIA, das operações secretas, do FBI, do Pentágono. “Muitos dos meus alunos eram descrentes”, diz ele. Mas os documentos revelados por Julian Assange, do Wikileaks, e o vazamento de informações ainda mais bombásticas, de Edward Snowden, reforçaram o conteúdo do curso. O problema é a reação dos alunos depois de que tomam conhecimento de tudo isso.
“E daí? Isso sempre aconteceu e vai continuar acontecendo”, dizem eles. O professor Wilkersen não se conforma. Ele disse que acabou de ler, esses dias, o livro do jornalista Glenn Greenwald, escolhido por Snowden para divulgar o conteúdo das informações a respeito da espionagem e das escutas generalizadas do aparato norte-americano. Na opinião de Wilkersen, o livro é muito otimista. O autor acredita que as revelações vão sacudir o povo nos Estados Unidos e provocar grandes mudanças.
“Infelizmente, não acredito”, disse. Na opinião do ex-braço direito de Colin Powell, as mudanças, nos Estados Unidos, são sempre precedidas de violência. Só acontecem com sangue nas ruas. Ele espera que não seja necessário um confronto tão dramático. Mas ao mesmo tempo, não vê muito outra forma de reverter o monstro criado nas últimas seis décadas. Um monstro que se auto consome, que destrói o planeta, que não tem a menor compaixão pela vida. Mas tem nas mãos todas as armas para destruí-la.

"A miscigenação é o maior valor do Brasil", diz o sociólogo italiano Domenico De Masi, autor do livro "O futuro chegou!"
Foto:  José Pedro Monteiro/Agência O Dia

Meu otimismo com o Brasil se baseia nas estatísticas", diz Domenico De Masi
Autor do livro ‘O Futuro Chegou’, que descreve os modelos desenvolvidos por diferentes países em épocas diversas, o sociólogo italiano dedica um capítulo ao Brasil, com uma visão bastante otimista
Paulo Henrique de Noronha paulo.noronha@brasileconomico.com.br e Octávio Costa ocosta@brasileconomico.com.br
O sociólogo italiano Domenico De Masi tornou-se famoso na virada do século quando lançou sua audaciosa teoria sobre o ócio criativo, que dá ênfase à cultura da inteligência e à contemplação da beleza. Agora, no livro “O Futuro Chegou!”, volta a surpreender pelo grande destaque que dá ao modelo social brasileiro. Na obra de mais de 700 páginas, ele se debruça sobre 15 modelos de vida — entre os quais, o capitalista, o socialista e o comunista — e dedica o último capítulo ao Brasil, concluindo que o país “se encontra numa situação única em relação ao seu passado e ao seu futuro”. Tem diante de si um grande desafio: “Pode dissolver-se na confusão ou pode gerar o modelo inédito de que o mundo precisa”.
Em entrevista ao Brasil Econômico , no Rio, o sociólogo deixa claro que acredita mais na segunda hipótese. Amigo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e admirador do antropólogo Darcy Ribeiro, De Masi afirma que “o Brasil é um bom exemplo para o mundo pela convivência, pela criatividade, pelo sincretismo religioso”. E destaca que a miscigenação é o principal valor do país. Dá também uma explicação simples e objetiva para sua aposta: “Quando me perguntam porque eu sou otimista com o Brasil, eu respondo: vejam os dados estatísticos”. E dá um exemplo que lhe é familiar. “Dez anos atrás, havia no mundo 196 países. A Itália estava no 7º lugar no ranking econômico e o Brasil estava no 10º lugar. Hoje, está em 7º lugar e a Itália no 10º. Esse é um enorme motivo (para o otimismo)”.
Em seu último livro, o senhor se mostra otimista com o Brasil, num momento em que o país passa por várias dificuldades. Qual a razão para seu otimismo?
Os dados estatísticos oficiais. Dez anos atrás, havia no mundo 196 países. A Itália estava no 7º lugar (no ranking econômico), o Brasil estava em 10º lugar. Hoje, o Brasil está em 7º lugar, e a Itália em 10º. Esse é um motivo enorme. O Brasil é o quinto país exportador industrial do mundo. No Brasil há uma população de 200 milhões numa superfície que é 28 vezes maior que a da Itália. No Brasil não há conflitos de guerra com países vizinhos desde a guerra do Paraguai. A Itália fez guerra com todos os países em seu entorno, contra França, Alemanha, Espanha etc. No Brasil há uma redução, relativamente pequena, da classe mais pobre, a classe alta está aumentando. Na Itália, a classe alta vai diminuir, vai se proletarizar. São razões muito relevantes.
Mas neste momento o país vive um surto de manifestações, há toda uma pressão por melhores e maiores investimentos em saúde, educação...
Para mim, essas são demonstrações de otimismo. É bom que o país seja pacífico, mas não submisso, não colonizado. Vejo grandes problemas no país: a violência, a corrupção, a distância entre ricos e pobres e o analfabetismo. Se o governo é muito lento na resolução desses problemas, é importante que haja essa manifestação de massas para acelerar as soluções. É melhor ter essa manifestação na praça do que ter submissão.
Trechos de seu livro foram pinçados para mostrar que o sr. estaria se comportando mais ou menos como autores do passado, que falavam do “bom selvagem”, da índole cordial do brasileiro...
Não, não. Eu me referia a resultados de pesquisas de 10 anos atrás, feitas por antropólogos brasileiros, e não por mim, não é uma ideia minha. Esse personagem foi descrito por esse antropólogo, DaMatta (Roberto), e outros estudiosos brasileiros, mas não é ideia minha.
Mas o sr. fala dessa visão de que o Brasil conviveu bem com a questão racial, de que a miscigenação faria parte da personalidade de nosso povo...
Eu faço uma comparação com países eslavos, Iugoslávia, Hungria, Romênia etc., onde há quatro raças que sempre guerrearam, há mil anos guerream. No Brasil, há 45 etnias e não há uma guerra de brancos contra negros, de africanos contra índios. Houve, sim, uma grande exploração capitalista dos escravos e dos índios. Mas guerra, não.
Entretanto, o sr. diz que o Brasil pode servir de exemplo para o mundo.
Em alguns aspectos sim, sob outros, não. Não é um bom exemplo pela violência, pela corrupção. Mas é um bom exemplo pela convivência, pela criatividade, pelo sincretismo religioso.

O sr. fala que o Brasil teria que buscar um modelo próprio, já que se inspirou por 450 anos na Europa e por 50 anos nos EUA. Qual seria esse modelo?
Eu disse que o Brasil deve contribuir para criar um modelo novo. Há 15 modelos: o indiano; o chinês; o japonês; o clássico de Roma e da Grécia; o modelo hebraico; o católico; o muçulmano; o protestante; o iluminista; o liberal; o capitalista; o modelo socialista; o comunista; o pós-industrial; e o modelo brasileiro. Cada qual tem aspectos positivos e negativos. Eu digo que um novo modelo tem que pegar os aspectos positivos, o melhor de cada um desses 15. O Brasil é um dos 15, não é o modelo, mas tem suas contribuições a dar.
Que modelo o Brasil deveria buscar?
Vejo que o modelo do futuro teria que ser universal. Não deveria ser brasileiro, americano ou italiano, mas sim universal. Um modelo baseado sobre a miscigenação, em que haja multiculturas. Baseado na beleza, na harmonia. Não deve ser um modelo brasileiro, italiano ou japonês, mas uma síntese universal, tirando o que cada um tem de melhor. Não digo que o modelo do futuro é brasileiro. Digo em meu livro que o futuro chegou para todo o planeta, não só para o Brasil. Falo de modelos, no plural, para uma sociedade desorientada, planetária. Não digo que esse ou aquele modelo é melhor, digo que cada um tem aspectos positivos e negativos. Temos que pegar os aspectos positivos.
No momento, com o livro de Thomas Piketty (“Capital no século XXI”), há um questionamento do modelo capitalista, sobre a concentração de renda, que estaria se agravando nos países ricos... 
Isso já dizia Marx em seus trabalhos... O que propõe Piketty?
Ele propõe o imposto sobre fortunas, sobre a alta renda financeira.
É o welfare state . É um modelo antigo, socialista, de reforma. A criação desse imposto seria importante, desde que se traduza em serviços sociais, como na Suécia. Na Itália, há altos impostos, mas que não se traduzem em serviços sociais. Eu pago 57% de impostos, na Suécia é na faixa de 60%. A diferença entre Itália e Suécia é que, na Itália, os impostos não se revertem em bons serviços para a população, por causa da ineficiência burocrática e da corrupção.
O FMI, nos discursos de sua diretora-geral, Christine Lagarde, e em documentos técnicos, tem destacado a questão da desigualdade, como um risco para a sobrevivência do capitalismo. O sr. acha que o capitalismo já acordou para o problema da desigualdade?
Todos os autores capitalistas, Adam Smith, Tocqueville, Montesquieu, Jeremy Bentham, Paul Samuelson, todos consideraram o problema da desigualdade. A questão é que esses autores capitalistas, liberais, dizem que a desigualdade não é vencível, não pode ser eliminada. Mas os economistas socialistas, social-democratas e marxistas dizem que a desigualdade só pode ser eliminada. No capitalismo, não há sensibilidade para a questão da desigualdade. A não ser que seja um capitalismo social-democrático. O Brasil teve a sorte de ter tido Fernando Henrique Cardoso e depois, Lula. Fernando Henrique era social-liberal, Lula era socialista. Fernando Henrique acumulou a riqueza, Lula a distribuiu.
E Dilma Rousseff?
Dilma não é nem um, nem outro. É uma via intermediária. Mas eu não conheço bem. Depende muito do estilo. O fato de ser mulher não quer dizer nada, Angela Merckel é mulher e tem uma personalidade forte. Margaret Thatcher também tinha. Creio que Dilma não tem uma boa equipe, mas não conheço bem a situação.
O sr. sente uma diferença entre os quatro anos de governo de Dilma e os oito anos de Lula?
O governo de Lula viveu uma grande contradição. Teve dois grandes processos de corrupção. Há muitas pessoas do governo Lula que estão presas. No Governo Dilma, até agora, não há presos, não sei no futuro... Uma diferença é que o governo de Dilma tem um desempenho mais regular, o de Lula teve muitos altos e baixos. O que depende muito do estilo de cada um, Lula era muito carismático e de compromissos, mas eu não conheço muito bem os governantes brasileiros. Conheço bem Fernando Henrique, que é meu amigo e com quem falo regularmente, mas não conheço bem Lula e Dilma.
Fernando Henrique não está tão otimista quanto o sr. sobre o Brasil...
Mas ele é oposição, não pode ser otimista... (risos). Se vencer a eleição, ele voltará a ser otimista. Quem é governo, é otimista; quem é oposição, é pessimista; é assim no mundo todo. O Brasil é o quinto no mundo em produção industrial, sétimo PIB mundial, tem uma taxa de desemprego baixa, que é um terço da que temos na Itália e metade da que temos na Europa, que está, na média, em 12%. Sobretudo, o desemprego dos jovens no Brasil é mínimo. Sabe quanto é o desemprego dos jovens na Itália? 42%. Há 2 milhões de jovens que nem estudam nem trabalham. É desastroso.
Como o sr. viu essa eleição do Parlamento Europeu, que teve um avanço da direita e da extrema-direita em países como França, Inglaterra e Dinamarca?
A crise profunda da Europa aumenta. Há um elemento objetivo, que é quando na União Europeia os estados são reduzidos a regiões. Como aconteceu na Itália no século 18, com os estados de Nápoles, Roma, Piemonte, que hoje são regiões. Esse é um processo doloroso, mas indispensável para criar uma Europa unida. Outro problema é que a união é prioritariamente econômica, sem a união política. Há união monetária comum, mas não uma política monetária e financeira comum. Há a política global do banco central europeu e diferentes políticas econômicas dos vários estados. Há um primeiro resultado, que é a estabilidade monetária, que não é forte, mas é importante. A segunda coisa é que por 60 anos, pela primeira vez, não tivemos guerra entre os países. Outra coisa importante é que há muitos deslocamentos de pessoas de um país para o outro.
Mas a extrema-direita não quer um estrangeiro disputando seu mercado de trabalho...
A Europa é muito rica e se aproveitou da África por muitos séculos. A imigração é perigosa, causa centenas de mortes. E quando os imigrantes chegam, sofrem uma situação terrível.
E o que fazer com a África?
É necessário desenvolver a África, esta é a única solução. E isso depende de apoio do mundo ocidental. É como no Brasil. A violência é entre ricos e pobres, não é entre o Brasil e o exterior. É a mesma diferença entre a África e a Europa, que estão separadas pela distância de uma ilha.
O sr. escreveu que o comunismo perdeu, e o capitalismo não venceu. O mundo financeiro está vencendo?
Sim, está vencendo, mas isso é uma doença do capitalismo, não é um ponto de força, é uma fraqueza. Porque o comunismo sabia distribuir a riqueza, mas não sabia produzir. O capitalismo sabe produzir, mas não sabe distribuir. Hoje, no mundo, há 85 pessoas que tem mais riqueza do que outras 3,5 bilhões de pessoas. Isso não é capitalismo, porque 85 pessoas, ricas, podem consumir uma Ferrari, um iate, mas 3,5 bilhões podem consumir 3,5 bilhões de sapatos.
Mas não há só empresários financeiros nesses 85...
Há três italianos, e todos são do setor produtivo. Há a dona da Prada (Miuccia Prada), um fabricante de óculos (Leonardo Del Vecchio) e o Ferrero (Pietro Ferrero Jr.), que produz a Nutella. Esse mundo é muito louco, com Nutella, se consegue ser um dos homens mais ricos do mundo... não por salvar vidas humanas, ou fazer grandes invenções, como Leonardo Da Vinci, mas por fabricar Nutella... (risos).
Como, diante de tantos problemas, pensar que o ser humano, aos 50 anos, já pode parar de trabalhar e se dedicar a uma vida de lazer?
Li um artigo que dizia que eu quero um mundo de ócio, viver como vivem os índios. Ócio criativo é outra coisa! É o que estamos fazendo aqui — trabalho, estudo, troca de ideias. Isso é ócio criativo, não é não fazer nada. E os índios não ficavam fazendo nada. Eles tinham um ritual estético que é muito importante, tão importante quanto o de Giorgio Armani. Cuidavam do corpo, todos os dias, pintavam o corpo da pessoa amada, porque entendiam que a arte é tão importante que não podia ser feita por qualquer artista. Os índios não eram preguiçosos, eles trabalhavam. Não faziam é atividades remuneradas, porque tinham a natureza, a caça, a pesca. Mas não eram ineficientes.
Um das críticas é que o sr. estaria numa linha de pensamento contrária à produtividade, quando um dos maiores problemas da economia brasileira é a baixa produtividade do trabalho...
Eu sou a favor da maior produtividade do trabalho! Que seria usar mais o computador, por exemplo, e menos o trabalho braçal. Isso é ócio criativo, fazer só o trabalho criativo. O trabalho braçal fica a cargo do computador, do robô. São Paulo é pela baixa produtividade, porque a cidade construiu as empresas e escritórios a 4 horas de carro para as pessoas chegarem lá. Mas a produtividade física tem que ser da máquina, não do homem. O homem tem que ter a produtividade de ideias.
O sr. fala também que o brasileiro se preocupa muito com o corpo, que é hedonista...
Veja, todas as horas, de dia e de noite, o tempo todo, tem gente correndo na Praia de Ipanema. O brasileiro ama o corpo.
Mas os americanos também...
Não como aqui, nos EUA não tem um Ivo Pitanguy. Há um motivo para os brasileiros amarem o corpo. Porque o brasileiro era um povo majoritariamente de escravos, e a única propriedade que o escravo tinha era seu corpo, que precisava ser belo, forte, saudável. É essa a herança.
O índio também era saudável...
Mas não cuidava tanto de seu corpo. As pessoas deviam ler os livros de Darcy Ribeiro. Ele escreveu cinco volumes, que eu li e conheço muito, e ele explica bem. Diz que na cultura e no caráter brasileiro há três matrizes. A matriz portuguesa, que habituou o brasileiro à aventura e ao aprendizado; a indígena, que o habituou à estética e à harmonia com a natureza; e a africana, que o habituou à musicalidade e ao sincretismo. E eu acrescento uma quarta, que é a matriz internacional, que veio dos alemães, dos japoneses, italianos, poloneses, franceses, que deram um caráter universal à matriz brasileira. Eu não disse que os índios deram a matriz do ócio, da ineficiência. Há muitas matrizes, mas não a da indolência. Neste momento, em todo o mundo, há um grande movimento pela lerdeza, slow food, slow tourism, slow sex, tudo slow, contraposto à velocidade. Porque durante a sociedade industrial, a eficiência e a produtividade derivavam da velocidade. Hoje a velocidade é feita pelas máquinas, a nossa produtividade é de ideias.
E a questão da velhice? Mais pessoas estão vivendo mais, aumentando os custos da previdência para os governos...
Por que mais previdência? Por que as pessoas têm que parar de trabalhar? Por causa da lei? Esse é o modelo industrial, que está errado, é um modelo louco. O mercado de trabalho vai mudar, é uma necessidade. As pessoas têm que continuar trabalhando e serem produtivas. Quem faz um trabalho mental, como um jornalista ou um professor, deve continuar a trabalhar. Por que parar?
Mas a realidade não é assim...
A realidade não me interessa, a realidade é uma loucura, e vai mudar, vai ter que mudar. Quer dizer que aos 60 anos eu sou um jornalista e não devo mais escrever? Sou um professor e não devo mais ensinar? Um filósofo e não devo mais pensar? Então, devo estar disponível para morrer aos 55 anos?
O sr. escreveu sobre a era de Adriano, quando não havia mais deuses, ainda não havia Jesus Cristo e havia apenas o homem. Vivemos um momento parecido?
Veja o Brasil. Não há mais o modelo europeu, não há mais o modelo americano, e não há ainda um novo modelo. Seria uma loucura, hoje, copiar o modelo americano ou o modelo europeu.
Há algum modelo a ser copiado?
Não! É fato! É necessário criar um modelo. Pela primeira vez, o Brasil deve criar um modelo. Copiou por 500 anos, mas não é possível continuar copiando.
Essa lógica valeria para os demais países emergentes?
A China e a Índia estão criando seus modelos. Mas é errado criar só um modelo indiano, um chinês, um brasileiro, é necessário criar um modelo universal.
Falando sobre economia, estamos saindo de uma crise...
Não estamos! Isso não é uma crise. O que é uma crise? Crise é uma doença passageira, que se toma um remédio e passa. Isso não é uma crise, é uma redistribuição mundial da riqueza. Que não é rápida, pode durar dois, três, cinco séculos. A China e o Brasil crescem; Estados Unidos, Itália e França, decrescem. A China tinha uma renda per capita de US$ 1 mil; na Itália era de US$ 30 mil. A renda per capita na Itália passou para US$ 3,6 mil, na China foi para US$ 4 mil. É uma redistribuição da riqueza, não é crise, é uma coisa completamente diferente.
O sr. acha que os EUA continuarão a ser um país hegemônico nos próximos anos?
Os Estados Unidos já têm uma hegemonia científica há mais de 50 anos. É o país que mais produz patentes no mundo. Tem as melhores universidades, os melhores institutos de pesquisa e o maior número de patentes. Essa é a hegemonia americana.
Mas eles vão manter essa hegemonia?
Por ora, vão. Porém, a China já é a terceira no mundo em biotecnologia, e a primeira em nanotecnologia. Se olharmos o PIB da Itália nos últimos 60 anos, é uma curva descendente. O dos EUA, têm crescimento estável. Já a China, vem aumentando seu ritmo de crescimento ano a ano. Na lista dos dez países com maiores taxas de crescimento do mundo de 1982 a 1987, elaborada pelo FMI, tínhamos Estados Unidos, Japão, China, Reino Unido, Brasil, Índia, Alemanha, Coreia do Sul, Itália e Canadá. E agora, na previsão de 2012 a 2017, o ranking traz China, EUA, Índia, Brasil, Rússia, Indonésia, Coreia do Sul, México, Japão e Turquia. Repare que na nova lista não tem nenhum país da velha Europa. Quando me perguntam por que eu sou otimista com o Brasil, eu respondo: vejam os dados estatísticos.
Quais são os aspectos negativos que o sr. vê no atual modelo brasileiro?
Há a violência, a corrupção, o analfabetismo, a divisão desigual da riqueza e a infraestrutura. É uma loucura que, para ir do Rio de Janeiro, 16 milhões de habitantes, a São Paulo, com 43 milhões, tenhamos que viajar de avião. Não há trem, é uma loucura, é a distância Roma-Bolonha, que fazemos em duas horas, de maneira cômoda.
E o que tem de bom no modelo brasileiro?
A miscigenação é o principal valor do Brasil. “É tudo mestiço”, já dizia Oscar Niemeyer, “sou brasileiro, português, espanhol, alemão, italiano, sou, portanto, mestiço, como são mestiços a maioria dos meus irmãos brasileiros”. Esse é o aspecto mais forte. Porque todo o mundo vai virar mestiço. Os africanos vão para a Itália, os paquistaneses vão para o Afeganistão, os afegãos vão para a Índia, todo o mundo vai se misturar. A miscigenação é um fator fundamental. O outro aspecto positivo é a estética. Há também o crescimento da escolarização, o Brasil tem ótimas universidades.
E a educação é um dos setores mais criticados aqui, dizemos que é um setor muito atrasado...
Não é atrasado. É atrasado em relação aos Estados Unidos, mas não é atrasado em relação ao Brasil de 10, 20 anos atrás. Melhorou. Tem ainda as boas experiências de gestão empresarial, há muitas experimentações interessantes sendo realizadas no Brasil neste momento.