terça-feira, 6 de janeiro de 2015


Chega ao fim prazo de rendição voluntária de rebeldes na República Democrática do Congo

Em vez de se render e entregar as armas, grupo armado FDLR usou o período para continuar cometendo abusos dos direitos humanos, recrutar combatentes e defender sua agenda política ilegal, afirmam representantes da ONU.

 

Alguns combatentes do FDRL que se entregaram voluntariamente para a MONUSCO no Sul do Kivu, durante uma cerimônia realizada em 28 de dezembro de 2014. Foto: MONUSCO/Serge Kasanga

Terminou na última sexta-feira (2) o período de seis meses para a entrega completa e incodicional do grupo armado Forças Democráticas pela Libertação da Ruanda (FDLR). Na ocasião, as Nações Unidas e parceiros pediram que fossem tomadas “todas as medidas necessárias” para desarmar os rebeldes, que possuem como histórico uma lista de crimes hediondos na República Democrática do Congo (RDC).

O FDLR foi um dos autores do genocídio de Ruanda em 1994 e recebeu o prazo de seis meses para a rendição voluntária. No entanto, em vez da capitulação, o grupo armado usou o período para continuar cometendo abusos dos direitos humanos no leste do país, recrutando combatentes e defendendo sua agenda política ilegal, afirmaram o enviado especial da ONU para os Grandes Lagos, Said Djinnit, e o representante especial do secretário-geral na RDC, Martin Kobler.

A ONU afirma que terminar com a ameaça do FDLR não é uma responsabilidade única da RDC, mas sim uma tarefa compartilhada pelos países da região e do resto do mundo, que devem garantir a responsabilização dos perpetradores de crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio.

Ao não cumprir com o prazo estabelecido, o “FDLR não deixou nenhuma outra opção para a comunidade regional e internacional do que optar pela via militar contra aqueles dentro do grupo armado que não querem se desarmar voluntariamente”, alertaram os enviados, convocando o governo da RDC e a Missão da ONU no país (MONUSCO) a tomar todas as medidas necessárias para assegurar a desmilitarização dos rebeldes do FDLR.

 

'Brasil é o novo alvo para o cibercrime' diz especialista da Microsoft

Conselheiro assistente da Unidade de Crimes Digitais da Microsoft, Richard Boscovich fala sobre o aumento de ataques digitais

Moacir Drskamdrska@brasileconomico.com.br

São Paulo - Brasileiro de origem, Richard Boscovich deixou o país aos três anos de idade. Longe da terra natal, ele construiu uma carreira sólida nos Estados Unidos, com uma passagem de 17 anos pelo departamento americano de Justiça. Há oito anos, Boscovich atua como conselheiro assistente geral da Unidade de Crimes Digitais da Microsoft, à frente de uma equipe de cem profissionais, que identifica e combate as botnets — redes de computadores infectados controladas remotamente por cibercriminosos para a realização de ataques — globais. É esse trabalho que vai abrir novas oportunidades para que Boscovich, hoje com 53 anos, retome o contato com o Brasil. Em meio à globalização do cibercrime, o país é um dos novos alvos dos hackers. E como reflexo desse cenário, a Microsoft está abrindo uma operação local da divisão.

Como é o trabalho da divisão de crimes digitais da Microsoft?

Nós trabalhamos juntos com parceiros no setor privado e no setor público para o que chamamos de defesa proativa, mais ofensiva, em termos do que podemos fazer legalmente para poder realmente destruir ou incapacitar a habilidade de qualquer vírus. Nossa primeira operação teve início em 2010 e desde então, realizamos doze operações em parceria com agências como o FBI, nos Estados Unidos, a National Crime Agency (NCA), na Inglaterra, a Europol, e também no Japão e na Austrália. Criamos um modelo legal e uma estrutura técnica para não ter nenhuma implicação legal nos Estados Unidos e nos países em que temos negócios.

Como esses processo acontece na prática?

Nós desenvolvemos um sistema que permite pedir uma ordem judicial para tomar o sistema de comando dos vírus e redes de máquinas zumbis das mãos dos cibercriminosos. Nosso objetivo é obter uma ordem judicial para que todos esses computadores se comuniquem com a Microsoft. Mas, a única coisa que fazemos é identificar o IP dos computadores que estão infectados. A partir desse controle, passamos “ouvir”. Qual é o IP, o tempo e a data. Precisamos disso para determinar quais são e onde estão as máquinas infectadas. E aí trabalhamos com os provedores de serviços de internet e times de segurança de parceiros, para não só comunicar as vítimas, mas também ajudar a limpar esses computadores. Ao mesmo tempo, trabalhamos para destruir ou pelo menos interromper a comunicação entre o cibercrime e as máquinas infectadas.

Vocês conseguem chegar na origem dessas ameaças?

Nós fornecemos informações para as polícias de cada país para que elas possam identificar quem está por trás. Nossa última operação, em julho, foi uma operação civil, nos Estados Unidos, coordenada com uma investigação criminal na Europa. Nós destruímos uma botnet com um vírus financeiro que roubou mais de 250 milhões de libras esterlinas dos bancos britânicos. E depois da operação, esses bancos reportaram que a fraude diminuiu em 98%.

Como funciona a cooperação nessa cadeia do cibercrime?

Você tem grupos e cada um deles tem a sua especialidade. Em grandes ameaças recentes como o Citadel e o Zeus, nós vimos isso acontecer. Você tinha o grupo principal, criador do malware, tinha depois outro grupo cuja função era simplesmente vender kits de malware no mercado negro, e depois tivemos mais de 1,2 mil cibercriminosos usando esses malwares para criarem as suas próprias botnets. É um mercado muito similar ao mercado formal. Você tem, por exemplo, suporte. Se o criminoso tem algum problema para criar a sua botnet, ele pode literalmente pedir ajuda em um site, assim como existem portais para reclamações. Existe um nível de serviço que dá apoio técnico e orientações do que precisa ser feito. Assim como já vemos casos de aluguel de botnets. É nesse nível de sofisticação.

É possível estimar o quanto essa indústria movimenta hoje?

Existem números diferentes sobre esse mercado. Mas posso dar um dado específico da operação Citadel, na qual trabalhamos em parceria com o setor financeiro na Austrália. Nesse caso, as perdas para os bancos foram de US$ 500 milhões, em dezoito meses. Agora, globalmente, essa cifra está na casa dos bilhões.

Tradicionalmente, esses ataques têm origem no leste europeu. Há alguma mudança nessa frente?

Isso também vem mudando. Em junho, tivemos dois casos em que vimos realmente pela primeira vez a globalização do desenvolvimento do malware, com ameaças criadas no Kuwait e na Argélia, e que se alastraram por todo o mundo. A organização é como uma máfia e ela está se desenvolvendo de tal forma que está chegando agora ao Brasil. Já saturaram os Estados Unidos, a Europa e estão saturando a Austrália. Então, está claro para nós que o Brasil é o novo mercado para o cibercrime, ao lado dos outros países da América Latina. O Brasil já faz parte dessa cadeia.E essa é a razão pela qual estamos trazendo a divisão para o país e a região.

Como está sendo esse trabalho inicial no Brasil?

Já conversamos com o Ministério Público e tivemos contato com a Polícia Federal. Queremos realmente trabalhar mais próximos ao governo brasileiro e à iniciativa privada local, para aplicarmos a mesma metodologia que usamos no exterior. Estamos vendo cada vez mais a criação de malwares específicos por região geográfica. Já está acontecendo na Europa. Antes, eram botnets enormes, com 2 milhões, 3 milhões de computadores. Agora, por exemplo, uma das últimas que identificamos era pequena, com 400 mil máquinas atacando especificamente o setor financeiro britânico. Então, a tendência do cibercrime é ser mais geolocalizado. Por isso, queremos trabalhar com parceiros aqui no Brasil para identificar quais são os tipos de malware que estão sendo usados especificamente no país.

Vocês já identificaram ataques específicos para a região?

Existem vários tipos de malware que têm basicamente como alvo a América do Sul, mas hoje não temos a visibilidade que gostaríamos para poder identificar a estrutura de comando e controle dessas ameaças. O objetivo de estabelecer a divisão é aprimorar esse trabalho. Uma vez que nós identificamos um alvo de malware que queremos atacar, o processo em si é relativamente rápido. Podemos fazer uma operação entre dois e três meses.

Hoje, o Brasil não possui leis que consigam abranger todas essas práticas. Isso é uma barreira?

Isso não quer dizer que não é possível tomar ações. Uma das coisas que fizemos nos Estados Unidos foi levar à frente um processo civil em que utilizamos leis que nunca foram entendidas como um recurso contra os crimes cibernéticos. Leis que estavam nos estatutos há mais de 200 anos e que nós adaptamos para poder aplicar naquele problema. É possível fazer muita coisa mesmo quando não há uma legislação que regule especificamente o cibercrime.

Quais são as principais tendências em termos de ameaças?

O principal é a distribuição dos vírus. Além dos métodos tradicionais, como phishing e engenharia social, outra tendência é o envio de fotografias nas redes sociais. Muitas imagens têm um pedaço do código malicioso. Uma vez instalada no computador, ela puxa automaticamente o resto do código para infectar a máquina. Estão usando isso nos EUA. As transações móveis são outra ponta. Vamos ter um novo mercado com a tecnologia NFC (Near Field Communication, na sigla em inglês). Ao mesmo tempo, já existem botnets de celular. Todo tipo de ameaça que temos nos computadores tradicionais, estão migrando para os dispositivos móveis.

Como o sr. enxerga questões que estão no entorno da segurança, com a privacidade, o hacktivismo e os ataques com fins políticos?

Em uma das nossas operações, o malware tinha a capacidade de ligar a câmera e o áudio do computador infectado para ver o que a vítima estava fazendo em casa. Essa invasão de privacidade pode ser um problema no próprio mundo do cibercrime. Geralmente, os criminosos recrutam pessoas que chamamos de “money mules”, que ficam responsáveis por receber e enviar o dinheiro dos ataques para quem está no controle e levam uma porcentagem por isso. Tivemos um caso em que esse intermediário tirou a sua parte e não destinou o restante do dinheiro. Um dia, ele foi questionado pelo criminoso sobre a cifra devida, e respondeu que estava a caminho do banco para o depósito. Então, o chefe da quadrilha respondeu: ‘Você está mentindo, porque estou te vendo na sua casa e sei exatamente o que você está fazendo’. Então, é mais um exemplo de invasão de privacidade, mesmo que de um criminoso contra outro.

Prefeituras cobram R$ 1 bi da Vale por royalties atrasados

A queda de 40% na arrecadação em 2014 levou os municípios produtores de minério de ferro a pressionar a empresa para agilizar o pagamento de uma dívida por dedução indevida de custos de transporte

Nicola Pamplonanicola.pamplona@brasileconomico.com.br

As exportações brasileiras de minério de ferro bateram recorde em dezembro, mas os baixos preços praticados no mercado internacional se tornaram a principal dor de cabeça de municípios produtores da commodity. Segundo dados do Departamento Nacional de Pesquisa Mineral (DNPM), a arrecadação com a Compensação Financeira pela Exploração de Minério (Cfem) sobre a produção de ferro e minério de ferro caiu 40% em 2014. A perda de receita levou prefeitos de Minas Gerais a reforçar a pressão sobre a Vale pela cobrança de uma dívida em Cfem recolhida a menos no período entre 1996 e 2000.

“Estamos vivendo uma crise no país, que se reflete em redução das receitas do Fundo de Participação dos Municípios, e, para piorar, o minério caiu de US$ 140 para US$ 70 por tonelada”, diz Celso Cota, prefeito de Mariana (MG) e presidente da Associação dos Municípios Mineradores de Minas Gerais (Amig). A queda do preço do minério impacta diretamente os municípios, que dividem 65% da arrecadação da Cfem — o restante é dividido entre estados (23%) e o DNPM (12%). A receita com a rubrica foi de R$ 1,080 bilhão em 2014, 40,5% abaixo dos R$ 1,815 bilhão arrecadados em 2013. Foi o pior valor desde 2010.

A expectativa da Amig é que a arrecadação seja ainda menor em 2015, uma vez que o ano já começa com as cotações em baixa. “No ano passado, ainda tivemos meses com minério acima de US$ 100. Agora, começamos com US$ 70. A arrecadação da Cfem deve cair 40% a 50%”, calcula Cota. “Além disso, há perdas com repasses do Imposto de Renda Retido na Fonte e com o ISS que é gerado quando há investimento das mineradoras nos municípios”, acrescenta o presidente da Amig, ressaltando que 90% das prefeituras associadas têm grande dependência dos recursos gerados pela atividade de mineração.

A preocupação com a situação financeira levou a Amig a pressionar a Vale e o governo federal a equacionar uma dívida com Cfem arrecadada a menos entre os anos de 1996 e 2000, que os municípios entendem chegar a R$ 1 bilhão. No último dia 22, Cota esteve na sede da mineradora, no Rio, para negociar com o presidente da companhia, Murilo Ferreira. O valor, segundo a Amig, refere-se a deduções de custos de transporte feitas pela empresa no passado, que reduziram o pagamento da Cfem — que equivale a 2% da receita líquida de cada mina. “A Vale usava como despesa toda a movimentação interna do minério”, explica.

A empresa já havia concordado em pagar cerca de R$ 1 bilhão referentes ao período entre 2001 e 2006. Os municípios entendem que há jurisprudência no Superior Tribunal de Justiça para a cobrança sobre os cinco anos anteriores. A Vale discorda dos valores apresentados pela Amig e diz esperar posicionamento da Justiça e do DNPM para submeter o tema à avaliação de seu Conselho de Administração.

A empresa afirmou ter enviado consulta ao DNPM para esclarecer se a jurisprudência no Superior Tribunal de Justiça (STJ) estende, de fato, para 10 anos o prazo de decadência e prescrição para a cobrança da Cfem — o que justificaria o pagamento dos anos entre 1996 e 2000 — mas o órgão federal alegou que precisa esperar que o Supremo Tribunal Federal (STF) decida sobre o assunto antes de decidir a questão.

“A Vale reitera que, se corrigidas as cobranças existentes pela adoção da jurisprudência atual do STJ, devidamente respaldada por um posicionamento da Advocacia Geral da União, poderá examinar o assunto e submeter ao Conselho de Administração uma proposta de adoção do mesmo entendimento, para a quitação do transporte externo, não destacado em nota, no valor de R$ 300 milhões”, conclui a mineradora, em comunicado oficial.

Segundo Cota, a definição do valor final depende ainda de análises do DNPM, que é o órgão responsável por fiscalizar a arrecadação da Cfem. Ele espera que as partes envolvidas cheguem a um acordo neste primeiro trimestre, “Estamos esperando apenas que o novo ministro defina sua equipe, quem vai ficar no DNPM, para retomarmos as negociações”, diz. Os recursos, quando pagos, serão divididos entre municípios mineiros e paraenses, além dos governos dos dois estados.

Segundo o presidente da Amig, a crise dos preços do minério reforça a busca por novas fontes de renda pelas prefeituras das cidades mineradoras. “Vivemos o ciclo do ouro e agora estamos vivendo o ciclo do minério de ferro. Está na hora de planejar um novo ciclo”, comenta o prefeito de Mariana. Em seu município, diz ele, uma das apostas está no setor de turismo, com a qualificação de empreendedores de hotelaria e serviços e a definição de um calendário anual de eventos para atrair visitantes.

No final do ano, o preço do minério no mercado internacional atingiu a menor cotação desde meados de 2009, quando ainda sofria os efeitos da crise econômica de 2008. O cenário difícil para as mineradoras, provocado pelo excedente de oferta global, deve se manter por todo o ano de 2015, segundo projeções de analistas e executivos das principais companhias do setor.

 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015


‘Não temos plano B. Precisamos nos livrar do vírus’, afirma novo chefe da Missão de Emergência ao Ebola

Ould Cheikh Ahmed, da Mauritânia, assume oficialmente a função nesta segunda-feira. Seu antecessor, Anthony Banbury, lembrou os avanços alcançados ao mencionar que as previsões indicavam que a doença afetaria 1,4 milhão de pessoas até o início de 2015.

 

Trabalhadores de saúde com suas roupas de proteção em Makeni, Serra Leoa. Foto: UNICEF/John James

O novo representante especial da missão de combate ao ebola, nomeado pelo secretário-geral, chegou no último sábado (03) em Acra, Gana, para assumir, a partir desta segunda-feira (05), as funções de chefe da Missão das Nações Unidas para Resposta de Emergência ao Ébola (UNMEER). Ould Cheikh Ahmed, da Mauritânia, assumirá o posto no lugar de Anthony Banbury, que comandou a missão desde setembro. Ao discursar para os funcionários da missão no último sábado, Ahmed enfatizou que a equipe ainda encontrará um período difícil, mas é possível vencer o vírus.

“Não temos plano B, precisamos nos livrar do vírus. Está ao nosso alcance, mas não podemos ser complacentes”, disse o novo chefe da Missão.

Ao despedir-se, Banbury lembrou a importância de ter presente o ponto de partida do início da Missão, reconhecendo os avanços obtidos até o momento. Segundo ele, apesar do índice de contágio ter superado 20 mil pessoas e causado mais de 7,9 mil mortes, a previsão inicial indicava que haveria cerca de 1,4 milhão de casos de infecções no início de 2015.

Ahmed viajará nesta semana a Libéria e Serra Leoa, e posteriormente à Guiné, para reforçar as prioridades estratégicas da UNMEER. Segundo a Missão, todos os três países possuem agora capacidade para isolar e tratar 100% dos pacientes e equipes funerárias suficientes para enterrar de forma segura todos os cadáveres.

Antes dessa nomeação, Ahmed serviu como vice-representante especial e vice-chefe da Missão da ONU na Líbia.

 

'Perspectivas de crescimento, e muito baixo, apenas em 2017'

Doutor e livre docente pela Faculdade de Economia e Administração da USP, o economista Affonso Celso Pastore aposta que o crescimento do país este ano será ainda menor que o de 2014

Eliane Vellosoeliane.velloso@brasileconomico.com.br e Octávio Costaocosta@brasileconomico.com.br

Como o sr. vê a atual política de combate à inflação? O governo abandonou a prioridade de levar a inflação para o centro da meta este ano?

Você não consegue trazer a inflação para o centro da meta num curto período de tempo. Ela subiu, desancorou expectativas, está rodando em torno do topo da meta. Existe uma quantidade enorme de preços administrados que ficaram defasados em função da tentativa de controlar a inflação segurando preços administrados. Isso que o governo fez. Nós estamos enfrentando, devido ao déficit muito alto na conta corrente, um período de depreciação cambial que já vem há algum tempo. E, obviamente, a depreciação cambial eleva a inflação. Quer dizer, da soma dessas forças, embora a inflação feche o ano de 2014 talvez um pouco abaixo do topo da meta, lá pelos 6,3%, 6,4%, a tendência é começar o ano de 2015 com ela encostando o topo da meta. Pode bater acima de 7% por algum tempo antes de começar a cair. E quando começar a cair, vai cair muito lentamente. Quer dizer, ela não vai convergir para a meta em 2015. Ela começa a reduzir, numa tendência a convergir para o cento da meta em 2016. Mas é claro que projeções por um período muito extenso na frente tem sempre uma margem de erro. Eu diria que o mais provável é que ela vá convergir para a meta lá para 2017.

Por que a inflação voltou a subir?

Houve dois desajustes nesses últimos anos que são responsáveis por essa teimosia da inflação crescente. Primeiro foi uma política fiscal extremamente expansionista; segundo, foi uma política monetária excessivamente acomodativa. Tem dois erros aí. Tem um erro de política fiscal, e tem um erro de política monetária. Em 2011, esse governo fez um superávit primário bem alto, mas por um curtíssimo período de tempo. Logo em 2012 mudou de ideia e reservou à política fiscal uma outra tarefa, que era a de expandir a demanda. Foram as chamadas políticas contracíclicas.

Que tinham dado certo em 2008 e 2009...

Quando a economia precisava de políticas contracíclicas e o Brasil estava absolutamente preparado para enfrentar a crise financeira internacional, que nos Estados Unidos foi uma crise bancária de grandes proporções. Aqui não houve isso. O saneamento do sistema bancário já tinha se completado, o país tinha entrado na austeridade fiscal, tinha cumprido as metas de superávit primário, vinha reduzindo a relação dívida/PIB, houve uma completa desdolarização da dívida pública e a inflação estava convergindo para a meta. Então, naquele momento, o Brasil estava preparado para seguir políticas contracíclicas. E seguiu. E teve um enorme sucesso. A crise foi muito mais aguda nos Estados Unidos e na Europa e demorou em média seis trimestres. No Brasil foi curta, cerca de dois trimestres. E foi localizada na indústria, não pegou muito o setor de serviços, que é o grande empregador no país. Quando chegou em 2010, o Brasil já tinha saído completamente da crise e o PIB cresceu 7,5%. Mas, em 2012, sem necessidade de fazer política contracíclica, nós entramos numa política fiscal expansionista.

Mas naquele momento a economia não estava começando a desaquecer, o que levou o governo a tomar medidas como a redução do IPI de automóveis?

Houve ali houve um erro de interpretação muito grande. Esse governo nunca percebeu que o Brasil é um país de escassez de mão de obra. Com o desemprego lá em baixo, você tinha que ter políticas econômicas que produzissem aumento de produtividade de mão de obra, investimentos de infraestrutura, permitir baixar custo para o setor privado. Seguir políticas fiscal e monetária que permitissem previsibilidade, tirassem risco, para junto com investimento em infraestrutura e etc. permitir a retomada do investimento. Mas o que acontecia é que a economia murchava, porque a produtividade não estava crescendo, e era ela que tinha crescer. Ou seja, desacelerou o crescimento do PIB potencial e o governo tentou combater isso expandindo demanda. Quando veio a crise na Europa e o BCE teve que fazer os LTROs (Long-Term Refinancing Operations para evitar a crise bancária, o Banco Central teve que dar um cavalo de pau e começou a baixar a taxa, com a inflação acima do topo da meta. Então, a taxa de juros foi transformada em objetivo, e não em instrumento de política econômica. Aí você teve a conjugação de expansão fiscal com superávit primário lá embaixo, a dívida bruta começou a crescer e não parou mais.

Era o início da nova matriz econômica?

Isso mesmo. Em função dos QEs (Quantitative Easing, os programas de liquidez dos EUA), o dólar estava se depreciando com relação a todas as moedas, inclusive o real, que estava claramente sobrevalorizado. A nova matriz dizia o seguinte: temos que depreciar o câmbio e manter o juro baixo. Bom, se deprecia o câmbio e mantém o juro baixo, a inflação sobe. Quando a inflação sobe, tem que parar de depreciar o câmbio. Aí o BC muda de mão. Quando chega 2013, ele está intervindo para evitar que o real deprecie. A política fiscal continuou expansionista. O BC ainda manteve a taxa de juro baixa até recentemente, quando começou o ciclo de subida. A combinação desse negócio todo fez a inflação sair do controle, com a política fiscal expansionista e a monetária acomodativa. A correção disso é que está sendo discutida.

O sr. acredita que haverá de fato uma correção de rumo?

Eu tenho um enorme respeito pelo Joaquim Levy. Ele é um economista com uma formação acadêmica excelente e tem duas experiências de muito sucesso no Brasil, como secretário do Tesouro no primeiro governo Lula e como secretário estadual de Fazenda do Rio de Janeiro, quando fez um trabalho excelente, além de outras atividades no Fundo Monetário Internacional (FMI) e no Banco Central Europeu (BCE). Ele sabe muito bem o que fazer. Ele tem noção de como ajustar a política fiscal. Então, na medida em que ele aceitou, certamente olhou para o tamanho da tarefa, e como ele é um homem muito responsável, não deve ter chegado para a presidente e imposto condições. Ele deve ter tido uma conversa adulta sobre o tipo de ajuste que tem ser feito no Brasil. E se ele aceitou, eu não tenho dúvida de que ele ouviu dela encorajamento no sentido de que essa é a linha que deve ser seguida.

Qual sua expectativa para o ajuste?

O superávit primário de 1,2% para este ano é insuficiente para reduzir a relação dívida bruta/PIB. O Levy coloca a redução da dívida bruta como sendo um objetivo e diz que nos anos seguintes vai aumentar o superávit primário. Vai fazer 1,2% neste primeiro ano e no mínimo 2% no segundo. É um ajuste fiscal forte, como nunca tivemos. O Brasil teve dois ajustes grandes. Primeiro em 1998, quando saímos do regime de câmbio fixo e fomos para o regime de metas de inflação; e o segundo foi em 2003, na transição de FHC para o Lula. Essa subida para 1,2% é maior que as duas primeiras e temos que ter muito cuidado. Se a gente vai começar a aumentar imposto, vai desacelerar mais a atividade, penalizar o investimento, impedir a retomada da formação bruta de capital fixo. Acho que vai ter aumento de imposto, mas ele quer fazer o ajuste basicamente controlando gastos, o que também desacelera a atividade. O meu ponto é: fechamos 2014 com um crescimento medíocre, próximo de zero, talvez um pouco maior ou um pouco menor. Se você abrir a pesquisa Focus, vai ver que o consenso de mercado está baixando para este ano, mas ainda é de um crescimento maior que o de 2014. No meu ponto de vista, a Focus está errada. O crescimento deste ano vai ser ainda menor.

Ainda menor?

Exatamente. Primeiro, a política fiscal é mais contracionista; segundo, você não tem força para aumento de consumo. Eu quero ver a taxa de investimento. Mas nós não podemos esquecer que tem aqui um negócio que se chama crise na Petrobras, que é muito grande na formação bruta de capital fixo. Tem uma ligação grande dentro do setor de petróleo e também um peso enorme no investimento público das estatais, do ponto de vista da dimensão econômica. E sem balanço auditado, a Petrobras não tem condições de levantar capital.

Ela vai ter que rever o seu plano de investimentos?

Tem que rever e tem que cortar. E, além da Petrobras, todas as maiores construtoras do país estão no mesmo barco. Então isso introduz um deslocamento para baixo no investimento, com a incerteza que isso gera e o desdobramento que isso tem no plano econômico. Com uma economia já crescendo pouco e com uma desaceleração vinda do lado fiscal, não é possível você ter uma retomada dos investimentos. Quando você olha do lado da demanda, não tem consumo, não tem investimentos, e a política fiscal fica pior. Eu não quero dizer quanto cai o PIB esse ano, ainda é cedo para dizer isso, mas o crescimento é pior que o crescimento do ano passado.

E a taxa de investimento do país? Dificilmente passará dos atuais 17%?

Essa forma que você está colocando é cautelosa e eu gosto. Não será maior do que 17%. Eu ficarei muito surpreso se a taxa de investimento der maior do que a de 2014. É daqui para baixo, não daqui para cima. Acho que um grande resultado este ano é um investimento igual ao de 2014. Você tem um ano de crescimento muito ruim e já está vendo a taxa de desemprego tendo um começo de subida. Quando você corrige o desemprego pela taxa de participação, ele já está subindo há algum tempo. Você tem uma inflação que vai subir no início deste ano. Há uma depreciação cambial, que tem um lado positivo, com a melhoria da competitividade das exportações, que está indo muito mal, por sinal, além da melhoria da indústria, mas isso toma tempo, não vem instantaneamente. Se repassar para cima, o BC, ainda que vá com muita cautela para não adicionar uma força de desaceleração muito maior, tem que continuar subindo os juros.

Na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), o Banco Central foi  reticente e falou em parcimônia daqui para frente. O que o sr. achou dessa comunicação ?

Há algum tempo eu não acredito mais na ata do Copom e acho que não estou sozinho nisso. Existe lá dentro do Banco Central um temor muito grande de assumir seu mandato, que é o de combater a inflação. Então, ele sempre dá uma no cravo e outra na ferradura. E sempre é traído pelos fatos. Essa inflação vai para cima dos 6,5%, vai bater os 7% no começo deste ano. O câmbio hoje, de tudo que melhorou, ficou em R$ 2,67 no fim do ano. Não tinha economista que responde à Focus que desse esse número para o fim de 2014. Agora, todos estão tomando consciência de que há um crescimento muito baixo do comércio mundial e que há uma queda no preço das commodities. Como estamos com um déficit na conta corrente muito grande, vamos ter um câmbio que vai ficar assim, ou um pouco mais depreciado do que está. Isso significa uma pressão inflacionária maior e, quando o BC falou em parcimônia, estava falando de R$ 2,50, de modo que eles também estão sendo atropelados pelos fatos.

No cenário de economia quase estagnada, juros altas e câmbio valorizado, não vai haver muita pressão sobre o ministro Joaquim Levy?

Aí tem duas alternativas. Ou a presidente Dilma morde a bala, aguenta o Levy e passa um ano ou dois de ajuste — para colocar o Brasil no terceiro e no quarto ano em uma rota de retomada, com estabilidade de preços —, ou ela desiste. No meu plano de voo, ela não tem saída a não ser morder a bala e apoiar o Levy. Eu espero que seja feito isso. Mas tem que ter apoio político. Talvez o PT dê esse apoio político a ela. Porque o PT tem interesse de que, apesar de ter um custo de dois anos, a economia cresça nos dois anos finais do governo e o partido tenha chance de derrotar o Aécio, quando o Lula o enfrentar em 2018. Eu acho que provavelmente ela vai ser instada, politicamente, a manter o curso do ajuste. E deve ter sido o entendimento que o Levy teve quando aceitou ser ministro da Fazenda. Então vocês podem usar isso como plano de voo. Mas é um plano de voo sujeito a muitas turbulências, de natureza política ou mesmo ideológica.

A nova equipe econômica tem a presença do Nelson Barbosa como ministro do Planejamento, que foi quem criou as desonerações. Há uma contradição?

Só que o instrumento está nas mãos do Levy. Ele (Barbosa) pode ter a filosofia, mas não tem o instrumento na mão. Quando o Malan queria continuar com o Plano Real, o Serra não queria, mas acabou prevalecendo o Malan, que tinha os instrumentos na mão, além do apoio do presidente Fernando Henrique Cardoso. Com os instrumentos na mão e o apoio do presidente, ainda que tenha oposição teórica de outros ministros, o ministro da Fazenda faz prevalecer sua política. O mais provável é que o Nelson Barbosa coopere nesse tipo de política. Mas a decisão, em última instância, é da Dilma, de manter o curso ou não. O grau de desajuste que aconteceu é de tal ordem que você sabe que vai ter um custo grande e isso indica que, racionalmente, você deve manter o ajuste. No passado ela já se desviou daquilo que eles chamam de ortodoxia e optou pela heterodoxia, por crença ideológica. Se tiver uma recaída da crença ideológica, aí nós temos um problema na frente. Nenhum de nós tem condição de dizer se isso vai acontecer. A gente espera que não. Mas, também, não tem certeza de que não recaia.

A Universidade de Campinas já está batendo. Como a presidenta é oriunda de lá, não é uma forte influência?

Esse risco existe, não podemos minimizá-lo. E ainda que não se materialize, a simples existência desse risco faz com que os empresários que cogitassem fazer algum investimento agora queiram uma definição maior sobre a manutenção ou não da política econômica. Enquanto persistir a incerteza, persiste o conservadorismo dos empresários.

O que acaba afetando a taxa de investimento também, não?

Ela acaba reforçando a tendência de a taxa de investimento ficar mais baixa.

Mas tirando essa freada de arrumação necessária este ano, o senhor vê um cenário mais desanuviado para frente?

Eu acho que 2015 é um ano muito duro, pior do que 2014. O ano de 2016 ainda será muito duro, mas, talvez, menos do que 2015. Em 2017 é que vamos começar a ter perspectivas de crescimento, embora muito baixo. O crescimento potencial do Brasil, hoje, está perto de 1,5%. Talvez, em 2017, possamos chegar a 2,5%, mas essa é a velocidade da recuperação. Ela não é uma coisa retumbante. Será um crescimento baixo.

No seu livro “Inflação e crises — o papel da moeda” o sr. fala do desgaste da reputação do Banco Central neste governo. A manutenção da sua direção foi bem vista pelo mercado?

O mercado financeiro é cínico a esse respeito, pois depende do Banco Central. Se ele fizer uma crítica como eu faço... eu não levo cliente lá, mas tem cliente estrangeiro que quer conversar com o BC, por isso é preciso ter um grau de diplomacia na crítica pessoal. Ninguém vai dizer que não tem credibilidade. O que você usa são evidências claras. Pega um gráfico com a taxa de inflação projetada pelo mercado 12 meses à frente. Você vai ver que ela está acima dos 6,5%, quase nos 7%. Você acha que um mercado que projeta para 12 meses para frente uma inflação de 7% (ela está em 6,3%) está tendo uma manifestação de credibilidade na execução da política econômica? Olhe as reações que saíram (sobre a última ata). Se o BC tivesse dado 0,5 ponto percentual no último Copom e não falado nada sobre parcimônia, teria sido aplaudido. Quando colocou aquela “frasezinha marota” lá dentro, talvez para acomodar situações internas, de um ou outro diretor que não queria, o mercado reagiu muito mal.

Foi visto como contraditório?

O mercado financeiro pode ser cínico, de não fazer uma crítica direta ao BC, mas essas duas reações mostram que a credibilidade está muito baixa. Eu suponho que o novo ministro da Fazenda, com a formação técnica do Levy, que, no fundo, pode agir no sentido de coordenar a política fiscal e monetária, discutindo abertamente com o presidente do BC, possa induzir ações mais eficazes do Banco Central no campo da política monetária. Não que ele vá fazer a política monetária, mas o diálogo reassegura apoio mútuo e a coisa vai. Apesar de ficar o mesmo time, ele pode performar melhor do que performou no passado, quando não tinha interlocutor. Agora tem um interlocutor competente.

Hoje o BC tem quadros egressos do próprio banco. Seria o caso de ter lá nomes com sensibilidade de mercado, como na Fazenda?

O que eu condeno é a demonização do economista que veio do mercado financeiro. Essa Universidade de Campinas tem vários defeitos e um deles é o de achar que quem trabalha no mercado financeiro necessariamente é um pária da sociedade. É o que foi mostrado naquele filme da campanha com os banqueiros festejando e uma família com o feijão sumindo do prato. Eu conheço muito economista que trabalha no mercado financeiro porque tem de ter um emprego. Eu sou consultor de bancos porque tenho de ganhar a minha vida, não estou defendendo o interesse de ninguém. O jeito que Campinas nos vê é como se fôssemos aqueles indivíduos tirando o feijão das pessoas, quando ninguém que eu conheço está defendendo que tem de concentrar distribuição de renda para subir a taxa de juros. Esse é um instrumento que se usa para conter a inflação, mas acham que isso está sendo feito para dar lucro a banqueiro e penalizar o povo. Não há razão pela qual um indivíduo que é competente e que esteja no mercado financeiro não possa ir para o BC. Ficou um negócio de nós contra eles, que quem é bom é quem nasceu dentro do BC. Desculpa, mas quando você começa a fazer um processo que em genética se chama inbreeding, cruzando irmão com irmã — falando de animais, obviamente — você degenera geneticamente a raça. É muito bom ter cross-utilization, ter gente com outras orientações lá dentro.

Em relação à economia dos Estados Unidos, quando o sr. acha que o país vai subir a sua taxa de juros?

O que a presidente do Fed, Janet Yellen, disse na última reunião do Fomc (comitê de política monetária) é que o gato subiu no telhado. Tem gente que diz que o movimento de valorização do dólar fará a inflação do país cair e então o Fed não vai subir a taxa de juros. Não é verdade. Os EUA tem uma característica diferente do Brasil. O pass-trough do câmbio para preços lá é praticamente zero. A valorização ou desvalorização do dólar não afeta a taxa de inflação. Nem a queda do preço do petróleo. O Fed olha para o core (núcleo) e isso é inflação menos o preço do petróleo. O núcleo da inflação nos EUA depende do mercado de mão de obra. Os presidentes do Fed só falam na Nairu (Non-Accelarating Inflation Rate of Unemployment) por uma razão muito simples. A inflação nos EUA é basicamente de salários, pois a economia tem um setor de serviços muito grande. A inflação começa a subir quando os salários começam a subir. E para ver se os salários sobem, tem que olhar para a taxa de desemprego, mas a de longo prazo. O slack (folga) está chegando praticamente a zero e quando isso ocorre os salários começam a subir. Já tem indicadores de aumento de compensation (remuneração) e intenção de correção de compensation que já estão mostrando claramente a curva em ascensão. Ou seja, a economia americana vem crescendo vigorosamente e vai começar a produzir aumento de salários.

Então, vão começar a elevar juros?

Vão ter que elevar, sim. A Yellen disse que nas duas próximas reuniões não vai ter, mas pode ser que na terceira aumente. Eu diria que, para ser conservador, na pior das hipóteses, no fim do primeiro semestre vai subir.

E a cotação do dólar no Brasil já precificou isso?

O movimento de valorização do dólar no mundo já está aí há algum tempo. Todas as moedas estão se depreciando com relação ao dólar, inclusive ao real, outras mais, outras menos. Uma que deprecia muito mais é o rublo, claro, porque tem lá uma queda do preço do petróleo. Outra que tem depreciado mais do que várias outras é o real, apesar de o BC vender pesadamente swaps no mercado de câmbio, o que segura a depreciação. O real está depreciando mais porque o preço das commodities está caindo e nós estamos com déficit na conta corrente chegando a 4% do PIB, o que força a depreciação. Então, um pedaço desse movimento do real é EUA, mas não é tudo. O outro é puramente doméstico.

O sr. acha que a gente corre o risco de perder grau de investimento neste ano?

Na medida em que for cumprido esse programa do Levy — 1,2% no primeiro ano, com credibilidade, sem contabilidade criativa, e ele pisar no freio com os bancos públicos como está dizendo que vai pisar — eu acho que o grau de investimento está preservado, até se provar que ele não saiu do rumo. Se ele não sair desse rumo, eu acho que nós não perdemos o grau de investimento.

E a Petrobras, perde?

A Petrobrás, coitada, eu não sei o que vai acontecer com ela. Ela tem uma dívida de vários bilhões de dólares dos EUA e com covenants (cláusulas contratuais de proteção ao investidor) que não serão cumpridos. Eu não sei como ela vai voltar ao mercado. Foi feita uma pergunta ao Levy e ele deu uma resposta evasiva e a minha terá que ser também. Ninguém sabe se a República não vai ter que ir ao exterior para captar, para honrar a Petrobras. Isso é uma coisa que nós vamos ver nos próximos lances.

E esses rumores sobre fechamento de capital, o sr. acha exagerados?

A natureza odeia o vácuo. Na ausência de informações, a especulação sobre o que pode ser feito fica violenta. Mas eu ponho isso no campo das ilações que estão sendo tiradas sobre rumos possíveis. Existe um risco de tudo, mas não dá para darmos um palpite ordenado a essa altura.

sábado, 3 de janeiro de 2015


publicado em: 12/12/2014 às 07:12 | atualizado em: 12/12/2014 às 07:12

Pizzaria faz delivery com drone e entra na mira de Anac e FAB

O teste de delivery ocorreu em outubro, mas a Vero Verde só liberou imagens do drone-motoboy nesta quinta-feira (11)

Por G1

 

Drones estão se popularizando em todo o mundo

Santo André, SP - Distante até agora, a ideia de receber na janela de casa a entrega de pizzas trazidas por drones começa a se materializar para o brasileiro. Uma pizzaria de Santo André (SP) testou levar o prato até a casa de um cliente com um veículo aéreo não tripulado (vant). Como a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e a Força Aérea Brasileira (FAB) têm de autorizar sobrevoos como esse, o que não foi sequer solicitado, o caso será investigado, informaram os órgãos ao G1. Se o intuito do estabelecimento comercial for criar uma frota de drones que substitua os motoboys de carne e osso, terá antes que aguardar a regulação da Anac sobre o tema.


O teste de delivery ocorreu em outubro, mas a Vero Verde só liberou imagens do drone-motoboy nesta quinta-feira (11). Inspirado por experiências internacionais, como a da Amazon, que prepara um sistema de entrega de produtos feito por drones para derrubar o prazo de espera para 30 minutos e da pizzaria Dominio's o teste brasileiro foi conduzido por um quadcóptero (quatro hélices) capaz de percorrer um raio de 1,5 quilômetros a 40 km/h.


O voo foi feito pelo bairro Jardim e filmado não só pela câmera acoplada ao drone-motoboy como também por um vant cinegrafista. As autoridades também dizem que investigar uma ação da camisaria Colombo com drones durante a última Black Friday.

O destino da entrega era uma cobertura nas imediações da pizzaria. O caminho de um lugar a outro durou cinco minutos, quase a metade do tempo caso o veículo escolhido fosse uma moto, estima Ernesto Júnior, sócio-proprietário da Vero. "É um pouco complicado. O vento é uma coisa que atrapalha bastante e o peso da pizza acaba influenciando bastante", disse ?Pepperoni foi o sabor escolhido. "Tem que ser uma mais leve."


Não leva refrigerante

Além de chamar a atenção de quem viu o aparelho viajando pelos céus de Santo André, o teste com o drone gerou piadas enciumadas entre os motoboys que trabalham na pizzaria. "Falaram que o drone não leva refrigerante", ri.
Não levou também maquininhas de cartão de crédito ou moedas para o troco. Se tivesse de entrar em operação, essas questões deveriam ser consideradas, diz Rodrigo Caminiti, da agência digital WebSnap, responsável pela estratégia de colocar o aparelho no ar.


Não é somente com refrigerantes e formas de pagamento que os donos da pizzaria devem se preocupar. Anac e FAB prometem averiguar o caso e encaminhá-lo às autoridades competentes ou abrir investigação para punir a pizzaria em caso de irregularidade.


"Nenhuma aeronave remotamente pilotada, seja ela de aplicação civil ou militar, poderá decolar sem a autorização do DECEA [órgão que legisla sobre o uso do espaço aéreo]", informou a Aeronáutica. "Para aeronaves não certificadas, é aplicado o Certificado de Autorização de Voo Experimental (CAVE), cuja análise, aprovação e emissão cabe à Anac."

"Como foi um ensaio de voo baixo, a gente não chegou a entrar em contato com a Anac", diz Caminiti. Por conta disso, a Aeronáutica vai denunciar o fato ao Ministério Público Federal. Pedirá a aplicação de penalidades previstas no Código Penal. Já a Anac informa que o assunto foi levado à área responsável, mas não tem como dizer se "a operação foi feita ilegalmente".


Impasse

A agência ressalta que, "para que seja feito uso comercial e em áreas povoadas, o usuário deve aguardar a regulamentação que deve entrar em audiência pública em breve". E completa: "É importante ressaltar que a regulamentação sobre o uso de drones está sendo estudada no mundo inteiro, para que os normativos sejam preparados para atender a demanda atual, visando a segurança das operações".

A pizzaria Vero Verde, porém, não está sozinha nesse impasse diante de uma legislação ora restritiva ora por fazer.

A empresa que a inspirou, a Amazon, começa a procurar outros países para testar seus drones, porque os EUA ainda não possuem lei que permita o voo dessas máquinas pelos céus. O Brasil é forte candidato a não estar entre os possíveis destinos.

 

No último ano, conflito no Sudão do Sul tirou a vida de mais de 600 crianças, alerta ONU

 “As crianças no Sudão do Sul não só foram afetadas pela nova onda de violência e também viraram alvos diretos de todas as partes do conflito”, disse a representante especial do secretário-geral da ONU para crianças e conflito armado, Leila Zerrougui.

 

Crianças em Juba, Sudão do Sul. Foto: UNMISS

O conflito no Sudão do Sul prejudicou seriamente a proteção de crianças, aumentando as possibilidades de que sofram graves violações, concluiu um novo relatório publicado nesta semana pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon.

O primeiro relatório do chefe da ONU sobre as crianças e o conflito armado no Sudão do Sul documenta seis graves violações cometidas contra meninos e meninas no país, cobrindo o período de março de 2011 até 30 de setembro de 2014. São elas, assassinatos e mutilações, recrutamento e uso, violência sexual, sequestros, ataques contra escolas e hospitais e negação de acesso humanitário.

O documento revela que durante o período de dezembro de 2013 e setembro de 2014 mais de 600 crianças foram assassinadas. Nesse mesmo espaço de tempo, milhares de crianças-soldado foram vistas em operações militares do Estado e em outros grupos armados.

“As crianças no Sudão do Sul não só foram afetadas pela nova onda de violência, elas também viraram alvos diretos de todas as partes do conflito”, disse a representante especial do secretário-geral da ONU para crianças e conflito armado, Leila Zerrougui.

Ela lembrou que seis meses depois da promessa do Exército Popular de Libertação do Sudão e de outras partes do conflito de pôr fim e prevenir o uso de crianças, bem como outras violações contra elas, nenhuma ação concreta foi tomada até o momento para protegê-las.

O relatório insta o governo do Sudão do Sul a desenvolver um programa de desarmamento, desmobilização e reintegração para as crianças usadas em forças e grupos armados, dando-lhes o apoio adequado para ao seu retorno às suas comunidades, especialmente às meninas. O documento recomenda ainda o fim da impunidade para os autores das violações descritas contra as crianças.