segunda-feira, 5 de janeiro de 2015


'Perspectivas de crescimento, e muito baixo, apenas em 2017'

Doutor e livre docente pela Faculdade de Economia e Administração da USP, o economista Affonso Celso Pastore aposta que o crescimento do país este ano será ainda menor que o de 2014

Eliane Vellosoeliane.velloso@brasileconomico.com.br e Octávio Costaocosta@brasileconomico.com.br

Como o sr. vê a atual política de combate à inflação? O governo abandonou a prioridade de levar a inflação para o centro da meta este ano?

Você não consegue trazer a inflação para o centro da meta num curto período de tempo. Ela subiu, desancorou expectativas, está rodando em torno do topo da meta. Existe uma quantidade enorme de preços administrados que ficaram defasados em função da tentativa de controlar a inflação segurando preços administrados. Isso que o governo fez. Nós estamos enfrentando, devido ao déficit muito alto na conta corrente, um período de depreciação cambial que já vem há algum tempo. E, obviamente, a depreciação cambial eleva a inflação. Quer dizer, da soma dessas forças, embora a inflação feche o ano de 2014 talvez um pouco abaixo do topo da meta, lá pelos 6,3%, 6,4%, a tendência é começar o ano de 2015 com ela encostando o topo da meta. Pode bater acima de 7% por algum tempo antes de começar a cair. E quando começar a cair, vai cair muito lentamente. Quer dizer, ela não vai convergir para a meta em 2015. Ela começa a reduzir, numa tendência a convergir para o cento da meta em 2016. Mas é claro que projeções por um período muito extenso na frente tem sempre uma margem de erro. Eu diria que o mais provável é que ela vá convergir para a meta lá para 2017.

Por que a inflação voltou a subir?

Houve dois desajustes nesses últimos anos que são responsáveis por essa teimosia da inflação crescente. Primeiro foi uma política fiscal extremamente expansionista; segundo, foi uma política monetária excessivamente acomodativa. Tem dois erros aí. Tem um erro de política fiscal, e tem um erro de política monetária. Em 2011, esse governo fez um superávit primário bem alto, mas por um curtíssimo período de tempo. Logo em 2012 mudou de ideia e reservou à política fiscal uma outra tarefa, que era a de expandir a demanda. Foram as chamadas políticas contracíclicas.

Que tinham dado certo em 2008 e 2009...

Quando a economia precisava de políticas contracíclicas e o Brasil estava absolutamente preparado para enfrentar a crise financeira internacional, que nos Estados Unidos foi uma crise bancária de grandes proporções. Aqui não houve isso. O saneamento do sistema bancário já tinha se completado, o país tinha entrado na austeridade fiscal, tinha cumprido as metas de superávit primário, vinha reduzindo a relação dívida/PIB, houve uma completa desdolarização da dívida pública e a inflação estava convergindo para a meta. Então, naquele momento, o Brasil estava preparado para seguir políticas contracíclicas. E seguiu. E teve um enorme sucesso. A crise foi muito mais aguda nos Estados Unidos e na Europa e demorou em média seis trimestres. No Brasil foi curta, cerca de dois trimestres. E foi localizada na indústria, não pegou muito o setor de serviços, que é o grande empregador no país. Quando chegou em 2010, o Brasil já tinha saído completamente da crise e o PIB cresceu 7,5%. Mas, em 2012, sem necessidade de fazer política contracíclica, nós entramos numa política fiscal expansionista.

Mas naquele momento a economia não estava começando a desaquecer, o que levou o governo a tomar medidas como a redução do IPI de automóveis?

Houve ali houve um erro de interpretação muito grande. Esse governo nunca percebeu que o Brasil é um país de escassez de mão de obra. Com o desemprego lá em baixo, você tinha que ter políticas econômicas que produzissem aumento de produtividade de mão de obra, investimentos de infraestrutura, permitir baixar custo para o setor privado. Seguir políticas fiscal e monetária que permitissem previsibilidade, tirassem risco, para junto com investimento em infraestrutura e etc. permitir a retomada do investimento. Mas o que acontecia é que a economia murchava, porque a produtividade não estava crescendo, e era ela que tinha crescer. Ou seja, desacelerou o crescimento do PIB potencial e o governo tentou combater isso expandindo demanda. Quando veio a crise na Europa e o BCE teve que fazer os LTROs (Long-Term Refinancing Operations para evitar a crise bancária, o Banco Central teve que dar um cavalo de pau e começou a baixar a taxa, com a inflação acima do topo da meta. Então, a taxa de juros foi transformada em objetivo, e não em instrumento de política econômica. Aí você teve a conjugação de expansão fiscal com superávit primário lá embaixo, a dívida bruta começou a crescer e não parou mais.

Era o início da nova matriz econômica?

Isso mesmo. Em função dos QEs (Quantitative Easing, os programas de liquidez dos EUA), o dólar estava se depreciando com relação a todas as moedas, inclusive o real, que estava claramente sobrevalorizado. A nova matriz dizia o seguinte: temos que depreciar o câmbio e manter o juro baixo. Bom, se deprecia o câmbio e mantém o juro baixo, a inflação sobe. Quando a inflação sobe, tem que parar de depreciar o câmbio. Aí o BC muda de mão. Quando chega 2013, ele está intervindo para evitar que o real deprecie. A política fiscal continuou expansionista. O BC ainda manteve a taxa de juro baixa até recentemente, quando começou o ciclo de subida. A combinação desse negócio todo fez a inflação sair do controle, com a política fiscal expansionista e a monetária acomodativa. A correção disso é que está sendo discutida.

O sr. acredita que haverá de fato uma correção de rumo?

Eu tenho um enorme respeito pelo Joaquim Levy. Ele é um economista com uma formação acadêmica excelente e tem duas experiências de muito sucesso no Brasil, como secretário do Tesouro no primeiro governo Lula e como secretário estadual de Fazenda do Rio de Janeiro, quando fez um trabalho excelente, além de outras atividades no Fundo Monetário Internacional (FMI) e no Banco Central Europeu (BCE). Ele sabe muito bem o que fazer. Ele tem noção de como ajustar a política fiscal. Então, na medida em que ele aceitou, certamente olhou para o tamanho da tarefa, e como ele é um homem muito responsável, não deve ter chegado para a presidente e imposto condições. Ele deve ter tido uma conversa adulta sobre o tipo de ajuste que tem ser feito no Brasil. E se ele aceitou, eu não tenho dúvida de que ele ouviu dela encorajamento no sentido de que essa é a linha que deve ser seguida.

Qual sua expectativa para o ajuste?

O superávit primário de 1,2% para este ano é insuficiente para reduzir a relação dívida bruta/PIB. O Levy coloca a redução da dívida bruta como sendo um objetivo e diz que nos anos seguintes vai aumentar o superávit primário. Vai fazer 1,2% neste primeiro ano e no mínimo 2% no segundo. É um ajuste fiscal forte, como nunca tivemos. O Brasil teve dois ajustes grandes. Primeiro em 1998, quando saímos do regime de câmbio fixo e fomos para o regime de metas de inflação; e o segundo foi em 2003, na transição de FHC para o Lula. Essa subida para 1,2% é maior que as duas primeiras e temos que ter muito cuidado. Se a gente vai começar a aumentar imposto, vai desacelerar mais a atividade, penalizar o investimento, impedir a retomada da formação bruta de capital fixo. Acho que vai ter aumento de imposto, mas ele quer fazer o ajuste basicamente controlando gastos, o que também desacelera a atividade. O meu ponto é: fechamos 2014 com um crescimento medíocre, próximo de zero, talvez um pouco maior ou um pouco menor. Se você abrir a pesquisa Focus, vai ver que o consenso de mercado está baixando para este ano, mas ainda é de um crescimento maior que o de 2014. No meu ponto de vista, a Focus está errada. O crescimento deste ano vai ser ainda menor.

Ainda menor?

Exatamente. Primeiro, a política fiscal é mais contracionista; segundo, você não tem força para aumento de consumo. Eu quero ver a taxa de investimento. Mas nós não podemos esquecer que tem aqui um negócio que se chama crise na Petrobras, que é muito grande na formação bruta de capital fixo. Tem uma ligação grande dentro do setor de petróleo e também um peso enorme no investimento público das estatais, do ponto de vista da dimensão econômica. E sem balanço auditado, a Petrobras não tem condições de levantar capital.

Ela vai ter que rever o seu plano de investimentos?

Tem que rever e tem que cortar. E, além da Petrobras, todas as maiores construtoras do país estão no mesmo barco. Então isso introduz um deslocamento para baixo no investimento, com a incerteza que isso gera e o desdobramento que isso tem no plano econômico. Com uma economia já crescendo pouco e com uma desaceleração vinda do lado fiscal, não é possível você ter uma retomada dos investimentos. Quando você olha do lado da demanda, não tem consumo, não tem investimentos, e a política fiscal fica pior. Eu não quero dizer quanto cai o PIB esse ano, ainda é cedo para dizer isso, mas o crescimento é pior que o crescimento do ano passado.

E a taxa de investimento do país? Dificilmente passará dos atuais 17%?

Essa forma que você está colocando é cautelosa e eu gosto. Não será maior do que 17%. Eu ficarei muito surpreso se a taxa de investimento der maior do que a de 2014. É daqui para baixo, não daqui para cima. Acho que um grande resultado este ano é um investimento igual ao de 2014. Você tem um ano de crescimento muito ruim e já está vendo a taxa de desemprego tendo um começo de subida. Quando você corrige o desemprego pela taxa de participação, ele já está subindo há algum tempo. Você tem uma inflação que vai subir no início deste ano. Há uma depreciação cambial, que tem um lado positivo, com a melhoria da competitividade das exportações, que está indo muito mal, por sinal, além da melhoria da indústria, mas isso toma tempo, não vem instantaneamente. Se repassar para cima, o BC, ainda que vá com muita cautela para não adicionar uma força de desaceleração muito maior, tem que continuar subindo os juros.

Na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), o Banco Central foi  reticente e falou em parcimônia daqui para frente. O que o sr. achou dessa comunicação ?

Há algum tempo eu não acredito mais na ata do Copom e acho que não estou sozinho nisso. Existe lá dentro do Banco Central um temor muito grande de assumir seu mandato, que é o de combater a inflação. Então, ele sempre dá uma no cravo e outra na ferradura. E sempre é traído pelos fatos. Essa inflação vai para cima dos 6,5%, vai bater os 7% no começo deste ano. O câmbio hoje, de tudo que melhorou, ficou em R$ 2,67 no fim do ano. Não tinha economista que responde à Focus que desse esse número para o fim de 2014. Agora, todos estão tomando consciência de que há um crescimento muito baixo do comércio mundial e que há uma queda no preço das commodities. Como estamos com um déficit na conta corrente muito grande, vamos ter um câmbio que vai ficar assim, ou um pouco mais depreciado do que está. Isso significa uma pressão inflacionária maior e, quando o BC falou em parcimônia, estava falando de R$ 2,50, de modo que eles também estão sendo atropelados pelos fatos.

No cenário de economia quase estagnada, juros altas e câmbio valorizado, não vai haver muita pressão sobre o ministro Joaquim Levy?

Aí tem duas alternativas. Ou a presidente Dilma morde a bala, aguenta o Levy e passa um ano ou dois de ajuste — para colocar o Brasil no terceiro e no quarto ano em uma rota de retomada, com estabilidade de preços —, ou ela desiste. No meu plano de voo, ela não tem saída a não ser morder a bala e apoiar o Levy. Eu espero que seja feito isso. Mas tem que ter apoio político. Talvez o PT dê esse apoio político a ela. Porque o PT tem interesse de que, apesar de ter um custo de dois anos, a economia cresça nos dois anos finais do governo e o partido tenha chance de derrotar o Aécio, quando o Lula o enfrentar em 2018. Eu acho que provavelmente ela vai ser instada, politicamente, a manter o curso do ajuste. E deve ter sido o entendimento que o Levy teve quando aceitou ser ministro da Fazenda. Então vocês podem usar isso como plano de voo. Mas é um plano de voo sujeito a muitas turbulências, de natureza política ou mesmo ideológica.

A nova equipe econômica tem a presença do Nelson Barbosa como ministro do Planejamento, que foi quem criou as desonerações. Há uma contradição?

Só que o instrumento está nas mãos do Levy. Ele (Barbosa) pode ter a filosofia, mas não tem o instrumento na mão. Quando o Malan queria continuar com o Plano Real, o Serra não queria, mas acabou prevalecendo o Malan, que tinha os instrumentos na mão, além do apoio do presidente Fernando Henrique Cardoso. Com os instrumentos na mão e o apoio do presidente, ainda que tenha oposição teórica de outros ministros, o ministro da Fazenda faz prevalecer sua política. O mais provável é que o Nelson Barbosa coopere nesse tipo de política. Mas a decisão, em última instância, é da Dilma, de manter o curso ou não. O grau de desajuste que aconteceu é de tal ordem que você sabe que vai ter um custo grande e isso indica que, racionalmente, você deve manter o ajuste. No passado ela já se desviou daquilo que eles chamam de ortodoxia e optou pela heterodoxia, por crença ideológica. Se tiver uma recaída da crença ideológica, aí nós temos um problema na frente. Nenhum de nós tem condição de dizer se isso vai acontecer. A gente espera que não. Mas, também, não tem certeza de que não recaia.

A Universidade de Campinas já está batendo. Como a presidenta é oriunda de lá, não é uma forte influência?

Esse risco existe, não podemos minimizá-lo. E ainda que não se materialize, a simples existência desse risco faz com que os empresários que cogitassem fazer algum investimento agora queiram uma definição maior sobre a manutenção ou não da política econômica. Enquanto persistir a incerteza, persiste o conservadorismo dos empresários.

O que acaba afetando a taxa de investimento também, não?

Ela acaba reforçando a tendência de a taxa de investimento ficar mais baixa.

Mas tirando essa freada de arrumação necessária este ano, o senhor vê um cenário mais desanuviado para frente?

Eu acho que 2015 é um ano muito duro, pior do que 2014. O ano de 2016 ainda será muito duro, mas, talvez, menos do que 2015. Em 2017 é que vamos começar a ter perspectivas de crescimento, embora muito baixo. O crescimento potencial do Brasil, hoje, está perto de 1,5%. Talvez, em 2017, possamos chegar a 2,5%, mas essa é a velocidade da recuperação. Ela não é uma coisa retumbante. Será um crescimento baixo.

No seu livro “Inflação e crises — o papel da moeda” o sr. fala do desgaste da reputação do Banco Central neste governo. A manutenção da sua direção foi bem vista pelo mercado?

O mercado financeiro é cínico a esse respeito, pois depende do Banco Central. Se ele fizer uma crítica como eu faço... eu não levo cliente lá, mas tem cliente estrangeiro que quer conversar com o BC, por isso é preciso ter um grau de diplomacia na crítica pessoal. Ninguém vai dizer que não tem credibilidade. O que você usa são evidências claras. Pega um gráfico com a taxa de inflação projetada pelo mercado 12 meses à frente. Você vai ver que ela está acima dos 6,5%, quase nos 7%. Você acha que um mercado que projeta para 12 meses para frente uma inflação de 7% (ela está em 6,3%) está tendo uma manifestação de credibilidade na execução da política econômica? Olhe as reações que saíram (sobre a última ata). Se o BC tivesse dado 0,5 ponto percentual no último Copom e não falado nada sobre parcimônia, teria sido aplaudido. Quando colocou aquela “frasezinha marota” lá dentro, talvez para acomodar situações internas, de um ou outro diretor que não queria, o mercado reagiu muito mal.

Foi visto como contraditório?

O mercado financeiro pode ser cínico, de não fazer uma crítica direta ao BC, mas essas duas reações mostram que a credibilidade está muito baixa. Eu suponho que o novo ministro da Fazenda, com a formação técnica do Levy, que, no fundo, pode agir no sentido de coordenar a política fiscal e monetária, discutindo abertamente com o presidente do BC, possa induzir ações mais eficazes do Banco Central no campo da política monetária. Não que ele vá fazer a política monetária, mas o diálogo reassegura apoio mútuo e a coisa vai. Apesar de ficar o mesmo time, ele pode performar melhor do que performou no passado, quando não tinha interlocutor. Agora tem um interlocutor competente.

Hoje o BC tem quadros egressos do próprio banco. Seria o caso de ter lá nomes com sensibilidade de mercado, como na Fazenda?

O que eu condeno é a demonização do economista que veio do mercado financeiro. Essa Universidade de Campinas tem vários defeitos e um deles é o de achar que quem trabalha no mercado financeiro necessariamente é um pária da sociedade. É o que foi mostrado naquele filme da campanha com os banqueiros festejando e uma família com o feijão sumindo do prato. Eu conheço muito economista que trabalha no mercado financeiro porque tem de ter um emprego. Eu sou consultor de bancos porque tenho de ganhar a minha vida, não estou defendendo o interesse de ninguém. O jeito que Campinas nos vê é como se fôssemos aqueles indivíduos tirando o feijão das pessoas, quando ninguém que eu conheço está defendendo que tem de concentrar distribuição de renda para subir a taxa de juros. Esse é um instrumento que se usa para conter a inflação, mas acham que isso está sendo feito para dar lucro a banqueiro e penalizar o povo. Não há razão pela qual um indivíduo que é competente e que esteja no mercado financeiro não possa ir para o BC. Ficou um negócio de nós contra eles, que quem é bom é quem nasceu dentro do BC. Desculpa, mas quando você começa a fazer um processo que em genética se chama inbreeding, cruzando irmão com irmã — falando de animais, obviamente — você degenera geneticamente a raça. É muito bom ter cross-utilization, ter gente com outras orientações lá dentro.

Em relação à economia dos Estados Unidos, quando o sr. acha que o país vai subir a sua taxa de juros?

O que a presidente do Fed, Janet Yellen, disse na última reunião do Fomc (comitê de política monetária) é que o gato subiu no telhado. Tem gente que diz que o movimento de valorização do dólar fará a inflação do país cair e então o Fed não vai subir a taxa de juros. Não é verdade. Os EUA tem uma característica diferente do Brasil. O pass-trough do câmbio para preços lá é praticamente zero. A valorização ou desvalorização do dólar não afeta a taxa de inflação. Nem a queda do preço do petróleo. O Fed olha para o core (núcleo) e isso é inflação menos o preço do petróleo. O núcleo da inflação nos EUA depende do mercado de mão de obra. Os presidentes do Fed só falam na Nairu (Non-Accelarating Inflation Rate of Unemployment) por uma razão muito simples. A inflação nos EUA é basicamente de salários, pois a economia tem um setor de serviços muito grande. A inflação começa a subir quando os salários começam a subir. E para ver se os salários sobem, tem que olhar para a taxa de desemprego, mas a de longo prazo. O slack (folga) está chegando praticamente a zero e quando isso ocorre os salários começam a subir. Já tem indicadores de aumento de compensation (remuneração) e intenção de correção de compensation que já estão mostrando claramente a curva em ascensão. Ou seja, a economia americana vem crescendo vigorosamente e vai começar a produzir aumento de salários.

Então, vão começar a elevar juros?

Vão ter que elevar, sim. A Yellen disse que nas duas próximas reuniões não vai ter, mas pode ser que na terceira aumente. Eu diria que, para ser conservador, na pior das hipóteses, no fim do primeiro semestre vai subir.

E a cotação do dólar no Brasil já precificou isso?

O movimento de valorização do dólar no mundo já está aí há algum tempo. Todas as moedas estão se depreciando com relação ao dólar, inclusive ao real, outras mais, outras menos. Uma que deprecia muito mais é o rublo, claro, porque tem lá uma queda do preço do petróleo. Outra que tem depreciado mais do que várias outras é o real, apesar de o BC vender pesadamente swaps no mercado de câmbio, o que segura a depreciação. O real está depreciando mais porque o preço das commodities está caindo e nós estamos com déficit na conta corrente chegando a 4% do PIB, o que força a depreciação. Então, um pedaço desse movimento do real é EUA, mas não é tudo. O outro é puramente doméstico.

O sr. acha que a gente corre o risco de perder grau de investimento neste ano?

Na medida em que for cumprido esse programa do Levy — 1,2% no primeiro ano, com credibilidade, sem contabilidade criativa, e ele pisar no freio com os bancos públicos como está dizendo que vai pisar — eu acho que o grau de investimento está preservado, até se provar que ele não saiu do rumo. Se ele não sair desse rumo, eu acho que nós não perdemos o grau de investimento.

E a Petrobras, perde?

A Petrobrás, coitada, eu não sei o que vai acontecer com ela. Ela tem uma dívida de vários bilhões de dólares dos EUA e com covenants (cláusulas contratuais de proteção ao investidor) que não serão cumpridos. Eu não sei como ela vai voltar ao mercado. Foi feita uma pergunta ao Levy e ele deu uma resposta evasiva e a minha terá que ser também. Ninguém sabe se a República não vai ter que ir ao exterior para captar, para honrar a Petrobras. Isso é uma coisa que nós vamos ver nos próximos lances.

E esses rumores sobre fechamento de capital, o sr. acha exagerados?

A natureza odeia o vácuo. Na ausência de informações, a especulação sobre o que pode ser feito fica violenta. Mas eu ponho isso no campo das ilações que estão sendo tiradas sobre rumos possíveis. Existe um risco de tudo, mas não dá para darmos um palpite ordenado a essa altura.