terça-feira, 27 de novembro de 2012

HISTÓRIA - "A INTENTONA COMUNISTA"


               Cel Rfm Carlos Fernando Freitas de Almeida

 Fatos marcantes que ocorreram na madrugada de 27 de novembro de 1935, na Escola Militar de Realengo.
     O movimento comunista irrompido na segunda quinzena de no­vembro de 1935, envolvendo guarnições militares de alguns Esta­dos do nordeste brasileiro, trouxe a expectativa de que algo seme­lhante ocorreria no Rio, envolvendo a guarnição da Vila Militar. Houve confirmação do Chefe de Polícia do Rio de Janeiro, Major Felinto Muller, ao Coronel João Baptista Mascarenhas de Moraes, Comandante da Escola Militar do Realengo, de que havia rumores de um movimento de perturbação da ordem pública, na madrugada de 27 de novembro de 1935, promovido pelos comunistas. Em conseqüência, foram adotadas medidas de segurança, aumentando a vigilância na Escola, com a devida cautela para não perturbar a vida interna e os trabalhos escolares daquele estabelecimento de ensino militar.
      Na mesma data, o Esquadrão de Cavalaria, que era comandado pelo Ca­pitão Aristóteles Munhoz Moreira e tinha como subalternos os Tenentes Olivier, Orlando, Cramer e os Capitães Telles, Castro Neves, e Tavares do Carmo, estava, com uma instrução noturna marcada para ser realiza­da na região de Campo Grande, entre os dias 26 e 27 de novembro.     
     Na noite de 26 para 27, o Comandante da Escola autorizou a execução da instrução programada, fora da área escolar. Determinou que o Esquadrão fosse armado e municiado e na retaguarda da tropa, deveria ser incluída uma viatura, com munição real. Recomendou que a tropa deveria regressar imediatamente em caso de ocor­rência de qualquer distúrbio. Na hora marcada, a tropa partiu com destino a Campo Grande onde realizou os exercícios, tendo regressado e estacionado no Morro da Jaqueira, já tarde da noite. O Capitão Munhoz ao reunir seus oficiais notou a falta do Tenente Olivier. Imediatamente, deu ordem para que o Capitão Telles e o Cadete Tabert partissem imediatamente à procura do oficial desaparecido bem como uma viatura que também estava faltando.
     Mais tarde o Capitão Telles regressa trazendo a viatura, a montada do Tenente Olivier e o seu soldado ordenança, que ao ser interrogado informou que o Tenente Olivier havia embarcado em um trem em Bangu, com destino à Vila Militar.
     O Capitão Munhoz, preocupado com a situação manda redobrar a vigilância e determina aos oficiais que permaneçam acordados. Já alta madrugada ouve-se o som de rajadas de metralhadoras, partindo da região da Vila Militar, o que confirmou os rumores de uma revolta. Imediatamente, os cadetes foram despertados e em instantes já es­tavam montados para iniciarem a marcha de regresso à Escola. Em lá chegando o Esquadrão recebeu do Coronel Comandante a missão de defender a área do Rea­lengo contra qualquer ataque vindo de oeste (Curato de Santa Cruz) e capturar suspeitos ou desertores da Escola de Aviação Mi­litar, que estavam revoltados.
     Ao se configurar a grave situação reinante o Coronel ordenou que fossem tomadas as providências no sentido de transformar o Corpo de Cadetes em uma unidade de combate, organi­zando-o para exercer a vigilância e a defesa da área do Realengo. Foi então organizada uma tropa armada, formada por cadetes de Infanta­ria, que imediatamente se deslocou com a missão de barrar, na região leste, as estradas que davam acesso ao Realengo, na altura da ponte do Arroio Piraquara.
     Nesse ínterim, o Capitão José Alberto Bittencourt, Comandante da 1ª Cia. de Infantaria, que pernoitara na Escola, determinou aos seus cade­tes que se uniformizassem, se equipassem e recebessem o seu armamento individual e em seguida se deslocassem para o 1º Pátio para receberem munição real.
    Em seguida, o Cadete Domingos Ventura, do 3º ano de Infantaria recebeu ordem de colocar em forma um Pelotão de cadetes e apresentar-se ao Coronel Comandante para cumprir a missão de defender a região da ponte do Piraquara. Assume então o comando da tropa que já estava pronta o Tenente Petrônio Bri­lhante de Albuquerque.
    Antes da partida, o Tenente Brilhante recebeu o encargo de defender o Realengo de ataques da região leste e capturar suspeitos ou fugitivos do levante militar, vindos da Escola de Aviação Militar ou da Vila Militar, pois, até o momento, não se sabia ao certo o que estava acontecendo.
    Nesse meio tempo, o Comandante dirigiu-se aos oficiais e cadetes e lhes informou que; "Constava que a Vila Militar estava revoltada e iria marchar contra a Escola Militar, que se mantinha fiel ao Governo. Alertou que o Cadete que não desejasse combater poderia se reti­rar de forma  neste momento que nada lhe aconteceria. Porém, trans­posto o portão da Escola, era considerado traidor, o que ele não admitia."
    Como ninguém se manifestou, o Pelotão saiu pelo portão principal em passo ordinário lançando a frente uma patrulha como ponta de lança, com o efetivo de um grupo de combate, coman­dado pelo Cadete Domingos Ventura, para reconhecer o terreno a frente. A tropa se deslocou pela Estrada Real de Santa Cruz, atingindo a região da ponte do Arroio Piraquara. Chegando à ponte, o Tenente Brilhante adotou o dispositivo de defesa, com as armas apontadas para a direção da Escola de Aviação Militar e lançando sentinelas à frente, com a missão de barrar as viaturas que tentas­sem passar pela ponte.
    Por volta das sete horas da manhã, surge um automóvel, vindo pela estra­da em direção a Bangu e dirigido pelo Tenente Aviador Ivan Ramos Ribeiro, acompanhado pelo Capitão Aviador Agliberto Vieira de Azevedo, ambos fardados de verde oliva e sem qualquer cobertura. O carro foi intimado a parar pela senti­nela, tendo o Tenente Brilhante interpelado o Tenente Ivan Ribeiro que, sem sair do veículo, disse-lhe que havia recebido uma missão especial do Comandante do Regimento de Aviação para fazer uma ligação com o 2º Regimento de Artilharia Montada (2ºRAM.), em Santa Cruz. O Tenente Brilhante então mandou que os oficiais se apresenta­ssem ao Comandante da Escola. Eles responderam que não poderiam fazê-Io, pois tinham uma missão urgente a cumprir. Acreditando na veracidade das palavras do Tenente Ivan, o Te­nente Brilhante liberou o carro que prosseguiu sua marcha em direção a Bangu.
    Nesse ínterim, o Cadete Waldir de Melo Ferraz (vulgo Barão) do 2º ano, dirigiu-se ao Tenente Brilhante, alertando-o que aquela "conversa" parecia "gol­pe", para que eles pudessem fugir. Informou que conhecia o Tenente Ivan Ribeiro desde os tempos de Colégio Militar, e que ele possuía idéias es­querdistas. Fora inclusive punido com prisão, pois justamente no dia de sua de­claração a Aspirante-a-Oficial, como orador da turma, realizou um discurso de cunho comunista, que havia chocado as autoridades presentes.
     Refletindo melhor, o Tenente Brilhante sentiu-se ludibria­do e resolveu fazer voltar o carro. Solicitou então três voluntários para formarem uma patrulha. De imediato, se apresentaram os cadetes ­Aldebert,  Borges Fortes e Congro.
     Nesse momento surge um caminhão da Prefeitura, vindo de Bangu, que foi parado e requisitado pelos militares para transportar a patrulha com a missão de deter aqueles oficiais aviadores. Mandou que seus ocupantes, servidores da Prefeitura, desembarcassem tendo assumido a direção da viatura o Cadete Borges Fortes, que possuía habilitação de moto­rista. Embarcaram também o Cadete "Barão” que era o Comandante da patrulha, e os cadetes Aldebert e Congro.
    Antes de partir o Cadete "Barão" procurou inteirar–se de como proceder na sua missão de trazer aqueles oficiais à presença do Comandante da Escola: se presos ou apenas como convidados. O Tenente Brilhante então lhe disse que tentasse trazê-los como convidados, pois a sua condição de Cadete, hierar­quicamente, não lhe permitia prender oficiais. Entretanto, deveria in­sistir e trazê-los de qualquer maneira.
    A patrulha partiu em direção a Bangu a toda velocidade que o velho veículo permitia. Alguns quilômetros adiante encontraram o automóvel dos oficiais aviadores se abastecendo em um posto na antiga Estra­da Rio-SãoPaulo. Imediatamente, o caminhão bloqueou o veícu­lo fugitivo. 
    O Cadete "Barão" então ordenou aos cadetes da pa­trulha que cercassem a viatura, com as armas engatilhadas e prontas para uma eventual reação daqueles oficiais. Dirigiu-se ao Tenente Ivan Ribeiro que, ao ser interpelado negou-se a atender ao "convite" do Cadete para apresentar-se ao Comandante da Es­cola, alegando que tinha muita urgência na missão jun­to ao 2º RAM. Nesse momento, constatou-se que o Capitão Agliberto, empunhava uma pistola e estava muito nervoso. A discussão foi ficando acalorada ante a insistência do Cadete “Barão”. Ouviu-se então, o som estridente de uma sirene. Era o automóvel do comando da Escola que chegava e dele saltaram vários cadetes armados que constituíam uma segunda patrulha do Pelotão do Tenente Brilhante co­mandada pelo Cadete Geolas. Já não se tinha mais dúvidas da condição de revoltosos da­queles oficiais aviadores, pois já havia a confirmação do que realmente acontecera na Escola de Aviação Militar, onde os oficiais aviadores ha­viam iniciado um levante, tendo assassinado vários colegas que não quiseram aderir à Intentona Comunista deflagrada naque­la madrugada.
    Nesse momento o Capitão Agliberto exclamou: “Ivan, não adianta mais nós in­sistirmos! O Cadete Geolas então, deu voz de pri­são aos oficiais revoltosos que se renderam e foram desarmados e conduzidos no automóvel à presença do Coronel Comandante. No trajeto, os oficiais presos se desfizeram de alguns documentos que poderiam comprometê-los, rasgando-os e atirando-os pela janela do carro.
    Quando os presos chegaram à Escola Militar já se sabia que vários oficiais haviam sido assassinados durante a rebelião na Escola de Aviação Militar: eram os Capitães Armando de Souza Mello, Danilo Paladino e o Tenente Bragança, irmão do Cadete Lopes Bragança, nosso companheiro de turma.
   Ocorreu, então, no 2º Pátio, um fato que também merece ser mencionado. Quando, devidamente escoltados pelos cadetes que os detive­ram, os prisioneiros seguiam para o rancho, quando surge um Oficial-aluno que bradou em voz alta: "Aqui comigo - seis cadetes homens - dispostos a me acompanhar numa missão". Não sabendo da intenção daquele Tenente-aluno, um Capitão pre­sente avançou sobre ele, de revólver em punho, arrancando-lhe as platinas, prendeu-o e exclamou "Há muito tempo desconfiávamos de suas atitu­des".
   O Tenente-aluno não ofereceu resistência e teve forte crise nervo­sa, sendo conduzido ao Cassino de Oficiais, onde declarou que sua intenção era desagravar a morte dos companheiros na Escola de Aviação Militar.
   Nesse ínterim, o Comandante temendo qualquer reação por parte dos oficias e cadetes, contra os presos, declarou que não admitia que se fizesse nada contra a integridade física da­queles militares, pois no quartel eles eram de sua inteira respon­sabilidade.
    Os oficiais ficaram presos numa das dependências do 3º Pátio, próxima ao rancho dos cadetes, onde havia um desvio da Estrada de Ferro. Foram em seguida escoltados e conduzidos de trem ao Ministério da Guerra, no Quartel General da Praça da República, onde foram apresentados e interrogados. Depois das formalidades legais, foram conduzidos de ônibus e entregues à Penitenciária Civil da Rua Frei Caneca, no Rio de Janeiro.     
    A reação imediata, as ações bem conduzidas e a atitude enérgica do Coronel Mascarenhas de Moraes aliadas à disciplina com que se conduziram os oficiais e cadetes impediram que o levante se propagasse na Escola Militar do Realengo.
     Os cadetes que participaram das ações receberam do Coronel Comandante uma referência elogiosa individual em separado nos seguintes termos: “a contribuição pronta e eficaz, desde a madrugada do dia 27, permitiram o cumprimento das medidas de vigilância e de defesa do Realengo, em colaboração com a tropa da Vila Militar” “pelo entusiasmo e correção no cumprimento das ordens”, pela confiança e lealdade para com seus chefes” e “pelo modo corajoso como se portaram no cumprimento das missões recebidas”.


Referências: Memórias do Realengo  1935 a 1937


Cel Carlos Fernando Freitas de Almeida