quinta-feira, 10 de julho de 2014


Como precificar a tragédia?

Após o feriado paulista de ontem, os mercados financeiros retomam plena atividade hoje com a tarefa urgente de tentar “precificar” os possíveis efeitos sobre a economia do golpe desferido à autoestima nacional pela ultrajante derrota da seleção na semifinal da Copa

Luiz Sérgio Guimarães luiz.sergio@brasileconomico.com.br

Os analistas, os consultores e os homens que fecham operações terão de avaliar se o impacto é passageiro ou se a vergonha só será reparada por uma mudança completa “em tudo que está aí”. A primeira reação já foi conhecida ontem mesmo, em Nova York. Os ADRs de ações brasileiras subiram com vigor na Nyse. O índice Brazil Titans 20 avançou 1,24%. O investidor aposta que ou o governo atual terá de acenar com reformas capazes de levantar os brios ou abrirá caminho para que a oposição as faça. As repercussões nos segmentos de câmbio e juros futuros podem seguir a mesma linha hoje. Nesses casos, a da queda.

Mas ainda é muito cedo para uma precificação mais acurada. A percepção imediata, sujeita a revisão posterior, é de que a economia sofrerá mais ainda. Por quê? Das poucas coisas das quais o brasileiro se orgulhava era do futebol-arte pentacampeão do mundo. Sem ele, retorna o complexo de vira-lata. Sobrou apenas a dura realidade. Como sobreviver nesse mundo inóspito sem a magia dos grandes craques? Resta precaver-se diante de um futuro sombrio que conjuga inflação alta, estagnação econômica e desesperança nos políticos. De que forma?

Da maneira clássica: cortando, no caso das famílias, os gastos não essenciais e o consumo que pode ser protelado; e, no caso das empresas, o investimento e os custos que ainda podem ser cortados. Isso já vinha sendo feito, como mostra a queda em bloco de todos os índices de confiança. Se o sentimento que prevalecer for de que as mudanças requeridas no futebol têm de se espraiar pelo mundo da política e da economia — e pior, se predominar a antiga sensação de que nada em essência mudará —, os cortes de gastos irão se ampliar.

O mercado não tem certeza disso, mas também não tem confiança de que não acontecerá. Nesses momentos de cenários enevoados, as reações dos investidores costumam ser de medo. Armam-se estratégias destinadas a proteger o patrimônio. Se consolidar-se a impressão de que a economia irá atolar-se mais um pouco no pântano em que já está, a resposta técnica será uma queda dos juros futuros, e o dólar irá oscilar ao sabor do embate entre os que buscarão segurança numa moeda forte e os que apostam na troca do partido que está no poder há 12 anos.

Podem ser complicadas agora tentativas de isolar o mundo do futebol do “mundo real”. Se é certo que não há historicamente vinculação entre os resultados dentro de campo e os colhidos nas urnas, nem o marqueteiro mais autoconfiante conseguirá garantir que desta vez não será diferente, pois nunca houve um insulto tão devastador ao orgulho nacional — uma afronta agravada pelo gasto de R$ 26 bilhões com a realização do evento.

Como o mercado pode prever as providências do governo se as pesquisas hoje favoráveis a Dilma Rousseff derem uma guinada? Ao invés das reformas almejadas, ele poderia intensificar os gastos públicos para soerguer a economia cambaleante, torcendo para que nenhuma agência de rating rebaixe a nota brasileira antes de outubro, e aprofundar a âncora cambial, reduzindo o preço do dólar artificialmente para aumentar a sensação de riqueza do eleitor. Não dá, por enquanto, para arquitetar operações financeiras com base nessas suposições. Mesmo porque se a seleção se redimir no sábado e ganhar de forma convincente, dará guarida às análises de que a tragédia do Mineirão foi um acidente irreproduzível. Mas os tesoureiros ficarão com os dedos no gatilho.

O comportamento do dólar ontem não foi indicativo de tendência. O fechamento da praça paulista enxugou drasticamente a liquidez do câmbio. O dólar subiu 0,11%, cotado a R$ 2,2170. Os dados divulgados ontem pelo Banco Central sobre a balança cambial foram mistos e não mereceriam comemorações. Embora no acumulado de junho o fluxo tenha sido positivo em US$ 118 milhões — com a entrada financeira líquida de US$ 1,89 bilhão suplantando o déficit de US$ 1,772 bilhão registrado pela conta comercial —, nos três primeiros dias de julho houve um déficit de US$ 1,61 bilhão, puxado pela saída líquida de capitais financeiros de US$ 1,712 bilhão. O acumulado do ano também não inspira otimismo. A balança está positiva em US$ 2,539 bilhões de janeiro a 4 de julho, mas este saldo é 70% menor que o contabilizado em idêntico período de 2013.

O mercado secundário de títulos do Tesouro americano recebeu com certa frieza um dado novo inscrito na ata da última reunião de política monetária do Federal Reserve (Fed), divulgada ontem. O comitê fixou o mês de outubro como o de encerramento do programa de compras de títulos e hipotecas. “Caso a economia apresente o progresso esperado pelo Fed, e as compras de ativos reduzidas a cada reunião, a última redução acontecerá após o fim do encontro de outubro”, diz o documento.

A frase acaba com uma incerteza do mercado e estabelece a data para o início da contagem regressiva de seis meses para o aperto monetário propriamente dito. O “tapering” foi iniciado em dezembro, com a redução das aquisições de US$ 85 bilhões para US$ 75 bilhões. Após quatro cortes do mesmo tamanho, a injeção de liquidez é hoje de US$ 35 bilhões. Pelo roteiro estabelecido ontem, deve baixar para US$ 25 bilhões na reunião marcada para o próximo dia 30 e depois para US$ 15 bilhões em 17 de setembro. E, no encontro de 29 de outubro, será feito a última poda, não mais de US$ 10 bilhões, mas de US$ 15 bilhões.

A dúvida dos analistas era se o Fed também cortaria US$ 10 bilhões em outubro, deixando um restinho de US$ 5 bilhões para a última reunião do ano, em 17 de dezembro. A dúvida não era irrelevante, pois será a partir da data final do afrouxamento quantitativo que o mercado começará a contar os seis meses. O encerramento do programa já em outubro introduz a possibilidade de a taxa básica de juros iniciar um movimento de elevação já no início do segundo trimestre de 2015. Caso o “tapering” prosseguisse até dezembro, o prazo se estenderia até o fim do primeiro semestre.

Apesar da relevância dessa definição, como o Fed condiciona o início do aperto ao comportamento efetivo da economia, os mercados optaram ontem pela cautela. E a taxa da “treasury” de 10 anos, embora tenha chegado a subir de 2,56% no fechamento de terça-feira para até 2,61% ontem, fechou a 2,55%.