quarta-feira, 23 de julho de 2014


Goleada dentro e fora de campo

Futebol brasileiro sofre com amadorismo e tem dificuldades de formar atletas de pontas como no

A goleada da Alemanha sobre o Brasil por 7x1 na Copa do Mundo e o título dos alemães evidenciaram a diferença de preparação dos dois países e a necessidade de mudança no futebol brasileiro. Para especialistas em gestão, o amadorismo no comando do futebol do país é um dos principais problemas. Com dirigentes não remunerados e escolhidos apenas pela força política, o Brasil vai na contramão da Europa, que paga salários altos para contratar os melhores executivos do mercado. Além disso, a falta de planejamento a longo prazo deixa uma interrogação no futuro do futebol no país. Após o mundial, as únicas medidas da CBF foram dispensar a comissão técnica e contratar o ex-goleiro e empresário de jogadores Gilmar Rinaldi, para o cargo de coordenador da seleção brasileira, além de reconvocar Dunga para ocupar o lugar de Felipão.

 

Para o diretor executivo da empresa especialista em gerenciamento Innovia Training & Consulting, Ricardo Barbosa, o problema é cultural, pois falta vontade de planejar no país. “Para ter resultado precisam fazer um trabalho de planejamento, marketing, estratégia. O futebol brasileiro acha que é só nascer e pronto”, disse Barbosa.

Em 2000, a Alemanha viveu situação similar e decidiu mudar após um resultado que também foi considerado como vexame. A seleção alemã foi derrotada por 3x0 por Portugal em 2000 e eliminada na primeira fase da Eurocopa. “Depois disso, fizeram todo um planejamento nas categorias de base, na educação e na formação de profissionais. Esse planejamento fez a diferença”, comentou Barbosa.

Para o consultor e idealizador do modelo Simples Complexo Gerencial, Aírton Cicchetto, a diferença de planejamento entre Brasil e Alemanha foi demonstrado até no trabalho de psicologia das duas seleções. “A CBF chamou uma psicóloga de última hora, porque os jogadores estavam abalados, enquanto a Alemanha tem um psicólogo que já trabalha com eles há nove anos. Lá, até a música que eles escutam é planejada”, disse.

Cicchetto acredita que, se o Brasil quiser retomar a hegemonia, precisará iniciar a estruturação imediatamente. “Já estamos atrasados para a próxima Copa”, comentou.

Para o sócio-diretor da Pluri Consultoria, Fernando Ferreira, é a CBF que precisa ser a catalizadora das mudanças do futebol brasileiro. “A CBF se furta disso, mas cabe a ela liderar e induzir os clubes a realizar essas mudanças. Não adianta trazer grandes técnicos como Guardiola e Mourinho, se o trabalho na base não for eficiente”, disse.

Segundo Ferreira, o futebol brasileiro é uma indústria que não se atualizou e está ficando cada vez mais atrasada enquanto não adota o profissionalismo na gestão. “Se tivessem planejamento, aumentaria a oferta de jogadores de qualidade, algo que a CBF se beneficia diretamente. Hoje, ela tem contratos milionários sem fazer nada”. Ferreira também condena a falta de objetivo da entidade. “Ninguém sabe o que o Brasil quer para daqui a 10 anos. Eles só falam em ganhar, mas como? Como estará nossa liga, nosso estádios? Qual será o modelo de futebol? Querer ganhar, todo mundo quer.”

No balanço financeiro de 2013, apresentado na assembleia geral do último dia 16, a entidade apontou um faturamento de R$ 452 milhões, no ano passado, e lucro de R$ 56 milhões. Com isso, a CBF, que é uma entidade sem fins lucrativos, teve lucro equivalente ao que a federação alemã investe na formação de base anualmente, aproximadamente € 20 milhões (R$ 60 milhões).Setor que a CBF não investe R$ 1.

O problema na gerência passa também, segundo Ferreira, pelo amadorismo dos clubes brasileiros, que ainda trabalham com dirigentes não remunerados. “Como o futebol aqui é associativo, sem fins lucrativos, temos uma aberração, que são esses dirigentes não remunerados”.

Para Ferreira, esse modelo com dirigentes amadores não cabe mais atualmente e atrapalha na formação dos jogadores. “Em qualquer lugar do mundo, quem quer se desenvolver contrata os melhores profissionais. Enquanto aqui, temos dentista como diretor de marketing, médico que é diretor jurídico, só pela força interna no clube, mas sem a formação desejada para o cargo”.

O exemplo seriam os clubes europeus, que funcionam como empresas e contratam importantes executivos. Segundo Ferreira, os brasileiros não precisariam exatamente deixar de ser associativos e ter donos como os maiores clubes da Europa e sim apenas profissionalizar a gestão. “Até mesmo Barcelona e Real Madrid, que também são clubes associativos, não trabalham com dirigentes amadores. Apenas o presidente é político, os demais são especialistas contratados para a área”, A solução, segundo Ferreira, é obrigar os clubes através de leis a acabarem com os cargos não remunerados e terem executivos de verdade em suas diretorias.

Ferreira acredita que toda essa reformulação passa também por um calendário melhor organizado e a volta de público aos estádios. “Se os clubes fossem empresas, isso estaria resolvido, porque trabalhariam nisso. O futebol precisa se profissionalizar”.

A diferença de gestão entre os brasileiros e europeus fica ainda mais evidentes nas receitas dos clubes. No Brasil, o São Paulo foi o que mais faturou em 2013, com R$ 363 milhões. Seguido por Corinthians (R$ 316 milhões), Internacional (R$ 228 milhões), Flamengo (R$ 273 milhões) e Atlético MG (R$ 228 milhões). Os cinco juntos tiveram arrecadação de R$ 1,46 bilhão, inferior ao Real Madrid, que na temporada 2012/2013 arrecadou R$ 1,56 bilhão. O clube madrilenho apresentou o maior faturamento no período, superando o Barcelona (R$ 1,46 bilhão) e Bayern de Munique com (R$ 1,3 billhão), segundo a consultoria Deloitte.

A liga brasileira também aparece bem abaixo dos principais campeonatos europeus. Somados, os clubes do campeonato brasileiro arrecadaram R$ 3,06 bilhões em 2013. O valor é muito inferior aos clubes da Premier League (Inglaterra), que tiveram receita de R$ 8,9 bilhões na temporada 2012/2013. Número também é muito inferior ao da Bundesliga (Alemanha), com R$ 6,1 bilhões, e da La Liga (Espanha), que foi de R$ 5,6 bilhões.